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O que aprendi testando um site que ensina a ter orgasmos

Luiza Sahd

26/12/2019 00h00

Resumindo muito: não dá para transar com qualquer cara não, viu. (Ilustração: Reprodução/ Yuval Robichek)

Até muito pouco tempo atrás, era impensável que existisse uma plataforma para ensinar mulheres — ou pessoas com clitóris — a terem orgasmos. Nascidas na década de 1980, eu e minhas amigas crescemos com pouca ou nenhuma orientação sobre o prazer feminino, mas fomos sempre bombardeadas por mídias direcionadas a mulheres sobre como enlouquecer um homem na cama, como segurar marido, como emagrecer, como cuidar da pele… como fazer o outro feliz, enfim. Instrução sobre como a gente poderia sentir prazer com o nosso próprio corpo, que é bom, ninguém deu naquela época.

Em 2015, finalmente, um grupo de cientistas e sexólogos decidiu se mobilizar para entregar (finalmente!) um conteúdo de educação sexual direcionado majoritariamente para mulheres. O resultado foi o OMGyes, um site que disponibiliza tutoriais com texto, vídeos e animações bem didáticas sobre como diferentes estímulos na região da vulva podem provocar orgasmos mais fáceis, intensos, mais longos ou simplesmente de melhor qualidade equilibrando esses elementos. Tive o prazer — com o perdão pelo trocadilho — de conhecer e testar o serviço no último mês, quando estava preparando uma reportagem sobre o clitóris para a Universa. Trago uma boa e uma má notícia.

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A boa é que técnicas extremamente simples e inteligentes de manipulação genital podem mesmo revolucionar a nossa sexualidade; a má é que quase todo o conteúdo ensinado ali é praticamente impossível de ser executada por mulheres heterossexuais fora da masturbação ou de um relacionamento muito sólido. Senão, vejamos.

Uma das técnicas que achei mais eficazes foi a de estimular a região da entrada da vagina durante bastante tempo (ao invés de inserir dedo, brinquedo ou pênis lá no fundo e ficar cutucando o colo do útero que, aliás, pode ser bem doloroso se você não estiver subindo pelas paredes). Mas você já tentou convencer um homem a penetrar só o começo da sua vagina e ficar lá por um tempo antes de começar um entra-e-sai frenético? Eu já. Pouquíssimos toparam ter essa paciência e generosidade com o meu prazer.

A mesma conclusão se estendeu para outras técnicas de estimulação detalhadas no site. Você já experimentou deslizar um pênis pela região externa da vulva por alguns minutos antes de fazer penetração? É maravilhoso, juro. Pena que praticamente nenhum cara tem agenda pra fazer isso. Eles parecem ter, além de pressa, um pavor inexplicável de perder a ereção durante esse tipo de preâmbulo (que para a gente já é sexo mesmo, não preâmbulo), como expliquei neste texto aqui.

O pavor masculino de perder a ereção me fez ter pavor de manter relações sexuais com pessoas do sexo masculino. Em 2020, me recuso a transar com qualquer homem sem avisar, antes, que prefiro ele broxando do que me tratando igual um buraco sem alma por medo de broxar.

Voltando ao que interessa, outra explicação brilhante do OMGyes mostra que o prazer anal pode ser uma realidade para muitas mulheres por meio de toques sutis na entrada no ânus, com ou sem penetração profunda. Aí eu quase chorei de desgosto mesmo, porque 1- nenhum homem gosta muito da ideia de manipular um ânus e não penetrar; 2- caso um rapaz tenha essa benevolência, não é raro a gente ter que dar um BERRO no meio da transa para impedir o sujeito de enfiar o mesmo dedo que entrou no ânus na sua vagina. Em verdade, vos digo: se você quer uma vaginite em 2020, pode começar deixando uma pessoa dedar o seu ânus e, em seguida, sua vagina com a mesma mão.

Sem tempo, irmão

Citei três modalidades, mas poderia citar umas 30 do site em que pensei "legal, muito interessante isso aqui para fazer sozinha, com outra mulher ou com um parceiro de longa data". A verdade é que, pelo menos para uma mulher que só pratica sexo casual com homens, implementar os tutoriais nas transas de uma noite é praticamente utópico — e isso me ensinou muito sobre o bode de sexo casual que venho nutrindo há anos.

O prazer feminino não é simples: enquanto os homens precisam levar cerca de 80 ml de sangue ao pênis para ficar de pau duríssimo (até 130 ml em caras com pênis imensos), eles conseguem pular as preliminares tranquilamente. A matemática é simples: se precisa de menos sangue do que as mulheres para se excitar, o homem tem menor necessidade de estimulação. Para conseguir uma ereção clitoriana, uma mulher precisa levar cerca de 450 ml de sangue para a região. Essa curva de excitação mais lenta faz com que as moças precisem, em média, de uns 20 minutos de estímulos muito bem feitos para ficarem morrendo de vontade de serem penetradas.

Se uma mulher adota a filosofia "se não for para transar gostoso, nem saio de casa", ela vai invariavelmente ficar com fama de chata, frígida, exigente ou ruim de cama mesmo quando encontrar pela frente um cara que não tem 20 minutos disponíveis — ou curiosidade de saber como ela goza antes de começar a penetração bate-estaca clássica (que resolve a vida de praticamente qualquer rapaz com o mínimo tesão).

Testando o site que ensina a ter orgasmos, percebi que tive excelentes parceiros sexuais ao longo da vida — mas estes eram os rapazes que estavam pelo menos um pouco apaixonados por mim. Por isso, eles tinham a paciência de esperar pelo meu prazer antes de resolver o prazer deles. Praticamente todo o resto dos homens com quem transei só me fizeram perder tempo, energia e a fé nessa euforia sexual de solteirice que todo mundo prega, mas não conta sobre como pode ser frustrante na esmagadora maioria dos casos.

Boa vontade funciona?

Nem sempre. Por muito que o OMGyes tenha se esforçado para ensinar às usuárias a melhor forma de sugerir as práticas na hora do sexo com outras pessoas, acabei tendo más lembranças de todas as vezes que tentei explicar o que me agradava sem cortar o clima e fui ignorada, ludibriada ou criticada na hora H. As mulheres já não procuram pelos manuais de como enlouquecer um homem na cama, mas, em nossas defesa, nenhum homem que não esteja apaixonado parece estar lá muito interessado em enlouquecer uma mulher na cama. Provavelmente, eles nunca estiveram.

Enquanto esse descompasso de interesse pelo prazer do próximo não se equilibra, continuo celebrando o fato de que estamos descobrindo que o prazer solitário não é menor do que o prazer com outra pessoa. Em muitos casos, inclusive, ele pode ser maior e mais gratificante do que uma transa. Outra vantagem de se descobrir sozinha usando tutoriais de orgasmos é que essa prática sexual nunca é degradante — ao contrário de muitas transas que todas nós já tivemos, com gente que absolutamente não se importava com o nosso prazer.

Uma ideia simples como o tutorial de masturbação tem potencial para mudar a forma como muitas mulheres lidam com o próprio corpo, seus desejos e com a seleção de parceiros sexuais. Isso, por si só, é uma grande vitória. Como a gente vai fazer para ter satisfação sexual transando com homens, nesse caso, passa a ser também um problema (inédito) deles. Ou, se você preferir um meme: eles que lutem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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