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O homem gringo presta mais do que o brasileiro?

Luiza Sahd

29/10/2019 04h00

Esse é o quadro "Marte e Vênus", de Lavínia Fontana, pintado entre 1600 e 1610. Uma pena que seja tão atual 400 anos depois.

Uma das coisas que as pessoas mais perguntam para quem mora fora do Brasil, nos bastidores de WhatsApp, é: "e os caras? Como são os gringos aí?". Sempre começo a responder dando risada porque, na Espanha, o povo só considera gringo ("guiri", em castelhano) o pessoal de países mais nórdicos, da França para cima. Assim, a resposta número um da pergunta é que o atributo "gringo" está nos olhos de quem vê.

Voltando à curiosidade sobre o comportamento dos homens europeus, temo ser portadora de más notícias. Ontem mesmo, fui convidada a participar da seguinte discussão online:

 

Ponderei que talvez eu esteja me expondo demais na internet… mas não resisti à tentação de opinar.

 

Já falei aqui sobre a imagem da mulher brasileira no exterior e sobre o tratamento dedicado a bailarinas brasileiras em Madrid. Na verdade, toda imigrante oriunda de países periféricos que já tenha ousado flertar na Europa poderá contar ao menos uma história desagradável de preconceito e objetificação nesse contexto. Os jogos de poder estão presentes em todas as relações humanas e, na Europa, é comum um cara achar que ele é muito mais especial e digno de reverência do que uma mulher latina.

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Voltando à questão do comportamento, os europeus costumam mesmo ser mais respeitosos com o corpo alheio na paquera ao vivo, em um bar ou balada, por exemplo. Dificilmente um cara vai te puxar pelo braço — como faziam os Homens Neandertais e como ainda fazem muitos homens brasileiros. Por outro lado, se você olha ao redor em uma balada na Europa, pouca gente está se pegando. Frequentemente, ninguém fica com ninguém.

O que as pessoas fazem com isso, geralmente, é investir nos aplicativos de pegação para sair do zero a zero. Por ali, ninguém tem medo de ser invasivo ou tomar um fora, já que o match é uma confirmação de que o outro também está a fim. Talvez seja por isso mesmo que homens de todas as partes da Europa se excedam no desrespeito em espaços digitais: falar que você é brasileira e não ouvir algum insulto sexual durante uma conversa cara a cara é moleza. As pessoas ainda têm medo de tomar um bofetão ao vivo.

Nos aplicativos, em geral, os rapazes esperam de duas a dez mensagens para perguntar se você é liberal, se você pode mandar nudes, se você tá a fim de transar e por aí vai. Sem muito preâmbulo ou lubrificação. O resultado dessa dinâmica é a preguiça imensa de gastar tempo e energia com prospecção sexual em qualquer contexto: pessoalmente, ninguém faz nada. Por trás das telas, os caras costumam mostrar suas piores facetas.

Quando o papo é minimamente bom, o encontro também acontece de forma tão atropelada e sem intimidade que a construção do desejo pelo outro se torna, com razão, uma missão impossível. Flertar era muito mais fácil antes das redes sociais, quando você tinha uma pessoa interessante na sua frente e não podia perder a oportunidade de conversar antes que ela fosse embora sem deixar rastros digitais.

A construção do desejo em fogo baixo é o maior desafio afetivo da atualidade e, em países desenvolvidos — onde as pessoas não dão moral para estranhos — a coisa complica ainda mais.

Nada disso quer dizer que não existam caras interessantes, sublimes, carinhosos e decentes em todas as partes do mundo, de todas as idades, com disposição para o amor, para a reciprocidade e para o respeito. O que podemos dizer com segurança é que não dá para ficar fantasiando que sujeitos de culturas diferentes poderiam ser príncipes encantados. Ainda que fossem, eles te mediriam de cima a baixo antes de decidir se você é a princesa deles. Muitas vezes, você não é. Fora isso, procurar um príncipe às portas de 2020 seria muita ingenuidade.

O que ainda funciona em qualquer contexto de paquera com qualquer pessoa do mundo ainda é a boa e velha dignidade: ser o que se é e respeitar a natureza do outro evita muitas frustrações. É muito legal quando funciona. Pena que não acontece toda hora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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