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Modern Love: série mostra que não estamos mais acostumados a amar

Luiza Sahd

05/11/2019 04h00

(Reprodução/ Amazon Prime)

É muito difícil falar de amor sem apelar para o uso de clichês universais — ou sem medo de ser ridicularizado por causa desses clichês. A série Modern Love, baseada em histórias reais da coluna homônima do "The New York Times", abraçou o lado clichê do amor e foi além. Ao longo dos oito episódios produzidos pela Amazon Prime Video, Modern Love faz um mosaico interessante da nossa falta de familiaridade com o amor em tempos de obsessão com a eficiência.

Seja retratando a medíocre vida afetiva do criador de um aplicativo de paquera ou as dificuldades que qualquer relacionamento íntimo de longa data atravessa, Modern Love é feliz ao mostrar como gente de todos os tipos, atualmente, tem sentido verdadeiro pavor de se mostrar vulnerável ou confiar no outro correndo o risco de se frustrar no fim das contas.

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Alguns episódios da série tocam nesse aspecto com sensibilidade especial: no 7, há o casal gay que sonha em ter filhos — mas hesita mil vezes antes de se entregar ao amor pela criança que ainda nem chegou; no 3, tem a moça que sofre de transtorno bipolar e se convenceu de que ninguém poderia se apaixonar por alguém como ela; no 5, o "casal" de quase estranhos vai parar em um hospital durante o segundo encontro e acaba tendo que conversar sobre vulnerabilidades. A teia que une todas as histórias é esse medo que sentimos de falhar em contraste com o que nos é mais universal: o desejo de amar, ser amado e se sentir aceito.

No episódio 8, finalmente, uma personagem nos traz alento: a viúva que investe no amor com uma fé inabalável porque, no final da vida, já tem mais a ganhar abrindo o coração do que a perder se mantendo sozinha para evitar que algo dê errado. O que pode dar mais errado do que uma vida inócua, blindada de imprevistos?

Nunca esqueço de uma outra obra sobre o assunto que me marcou muito: "Ensaios de Amor", do filósofo e escritor Alain de Botton. Contando a história de um casal que se apaixona intensamente — para, depois, ver esse amor morrer — Botton se apoia em falas de pensadores, psicanalistas, artistas e cientistas consagrados para debater de forma multifacetada e original o já surrado assunto do afeto. Em um dado momento do livro, Botton menciona a teoria de Freud e nos lembra que, desde o momento em que nascemos, fazemos pouco mais do que buscar em estranhos a mesma conexão e aceitação que sentíamos quando estávamos tranquilinhos no útero de nossas mães. Sabendo disso, é estranho e até meio revoltante pensar que tantos de nós vivemos tentando nos preservar de um dos impulsos mais primitivos da espécie: a inclinação natural à paixão.

Voltando a Modern Love, a magia da série está na percepção de que estamos esperando eficiência em um lugar de onde pode sair absolutamente qualquer coisa, menos eficiência. As relações afetivas podem ser marcantes, bonitas, traumáticas, amenas, excitantes, deprimentes, escolha aí um adjetivo. Mas se existe uma certeza nessa vida além do fato de que vamos todos morrer é a de que, no amor, nada sai perfeito. Mesmo que a gente se esforce muito, nenhum algoritmo pode fazer com que um relacionamento dê certo se "dar certo" for sinônimo de prever ou evitar erros e danos. Deve ser esse um dos motivos pelos quais os jovens adultos transam cada vez menos: nossa tolerância a falhas diminui na mesma proporção que a tecnologia aumenta nossa blindagem contra acidentes de percurso.

Em um mundo tão tecnológico, tudo aquilo em que escolhemos investir tempo e energia precisa vir com alguma garantia de excelência. Seria ótimo que os nossos paqueras viessem com qualquer garantia — tipo resenhas de usuários anteriores, pelo menos — mas, feliz ou infelizmente, o afeto não oferece esses recursos. Se tudo der certo, nunca vai oferecer.

O mundo pode ficar incrivelmente moderno algum dia, com carros voadores e tudo, mas parece que o amor, diferentemente do que o título de Modern Love sugere, nunca vai acompanhar totalmente os nossos avanços sociais ou tecnológicos. Ele é um mistério muito antigo — e é por isso mesmo que ainda continuaremos falando do assunto por quantas eras a espécie sobreviver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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