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Descrevendo o homem dos sonhos, Luciana Paes provou que sonhamos pequeno

Luiza Sahd

15/07/2020 04h00

Foto: Reprodução/ Instagram

Um belo dia, pode ser que você abra o Instagram e encontre uma mulher descrevendo o que o homem de seus sonhos precisa — e o que não precisa — ter. No vídeo, ela não pede nada difícil ou muito ambicioso. Por isso mesmo, a internet ficou apavorada e encantada ao constatar que ninguém conhece um único cara que reúna todas as singelas qualidades descritas ali.

Embora seja uma obra de ficção, a esquete criada pela atriz Luciana Paes provou que os sonhos das mulheres contemporâneas são modestos e, ainda assim, inalcançáveis.

 

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Imbuída de muita admiração por Paes pela capacidade de síntese dos nossos tempos  — e por um pouco de cachaça na cabeça –,  escrevi para a atriz tietando mesmo (e pedindo uma entrevista). Quando o dia de nossa conversa chegou, ela sinalizou que a quarentena não está fácil nem para quem tem as boas ideias e o carisma dela: "A caralha do meu horóscopo falava que 2020 seria um ano maravilhoso pra mim", contou a atriz, libriana, que estava escalada para uma novela das sete na Globo antes da pandemia começar. "Era o primeiro ano em que eu sabia o que estaria fazendo até maio de 2021, estava muito contente."

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Enquanto a vacina ou o apocalipse não chegam, Paes participa do podcast do programa "Fora de Hora" com a mesma personagem que interpretava no humorístico da Globo, uma sanitarista. Em nossa conversa, falamos sobre o homem dos sonhos, humor em pleno caos, solidão, etarismo, política e ódio na internet.

Você já fez teatro, cinema, TV e agora produz esquetes nas redes sociais. O humor é o gênero que mais tem te destacado ultimamente. Você acha que fazer piada sendo mulher ficou mais fácil nos últimos anos?

LP: Acho que sim, mas adoro também as humoristas de antigamente, como a Nair Belo com a Hebe e a Lolita — e isso me faz lembrar de outra coisa.

Passei 40 dias gravando em Portugal e na Espanha. Lá, conheci uma professora de flamenco e tive uma crise de choro no fundo do tablado, porque é uma força do feminino muito diferente da que estamos acostumadas, como se aquela mulher estivesse entrando em contato com a Terra. No Brasil, existe ainda uma lógica de "sou desejada, logo existo". Dentro desses valores, a gente se encolhe muito para ser mulher de um jeito "adequado". Então, cabe a nós construir novos modelos para envelhecer, que não seja só esse de senhoras tentando ter 18 anos. Eu gostaria de virar uma dessas mulheres latinas de cabelos grisalhos, interessantes pra caramba, que sabem muito bem o que querem, sabem como é que gozam e, se tiverem com paciência, ainda ensinam a alguém.

Legal você ter citado a Nair Bello — e penso também na Dercy Gonçalves — porque tenho a sensação de que muitas mulheres passam a idade reprodutiva cumprindo o papel de gostosa que a sociedade impõe para, na velhice, se sentirem livres para serem outras coisas: engraçadas, inteligentes, especialistas em alguma área, grandes artistas… Você também tem essa sensação?

LP: O humor sempre nos obriga a abdicar um pouco da sensualidade. Humoristas como a Tatá Werneck e a Dani Calabresa conseguem manter uma graciosidade e uma beleza sendo como são, então essa geração vem descabaçando a mentalidade geral, você fica mais à vontade vendo mulheres… [Luciana faz uma longa pausa]

Grandes gostosas sendo também engraçadas?

LP: Isso. Exatamente.

Como é o seu caso, né? Quando você é naturalmente engraçada durante uma paquera, sente que os homens ficam intimidados com isso, como se você estivesse roubando o lugar de fala deles?

LP: Alguns dos meus professores da Escola de Artes Dramáticas falavam que a comédia é masculina, no sentido de que essa irreverência que o humor pede é mais autorizada aos homens.

Acho interessante como eles podem ser sedutores e humoristas ao mesmo tempo. Não consigo imaginar o Gregorio Duvivier se queixando que falte mulher dando mole por ele ser comediante.

LP: Mas aí tem mais a ver com o sucesso do que com a comédia. Uma vez, ouvi de uma grande atriz da Globo: "olha, se prepara, porque o sucesso é solitário para a mulher". Notei que tenho me dedicado a romper esse padrão na quarentena, mas sempre me encolhi para caber nas relações. Eu não me sinto realmente enxergada pelo que chamo de brasileiro-hétero-cervejeiro-abadá. Esses caras olham pra mim e falam "puta louca, meu! Muito figura". Daí, quando a pessoa fala que sou muito figura, já entendo que ela tem zero condições de lidar com a minha profundidade.

Com esse medo de não ser compreendida, sinto que encolhi minha personalidade por muito tempo. Tenho quase 40 anos — e o cara de 40 anos é visto como um lobo do mar que ainda não encontrou o grande amor dele, a princesa, a mulher que vai ter delicadeza suficiente para transpor as paredes gélidas do seu castelo. Agora, uma mulher de 40 solteira é bruxa. Então, a gente tem que lidar com a ideia do exílio.

Enquanto as mulheres não conseguirem lidar com o grande fantasma da solidão, a gente vai ficar tentando se enfiar numas caixinhas para não castrar o cara com quem a gente se relaciona. Sinto que avançamos muito em nossos desejos e interesses, enquanto a maioria dos homens seguem iguais. Claro que devem existir caras incríveis que estão em relacionamentos de reciprocidade, mas eles não são maioria.

Você, assim como sua personagem nos vídeos, está solteira. Era tudo piada o texto sobre o homem dos seus sonhos? Porque tenho a sensação de que meus flertes sempre têm um ou mais defeitos dos que você veta ali.

LP: Então. Eu falo do básico no vídeo! E se, na vida real, você começa a se posicionar sobre essas coisas mínimas, você passa por chata, por mulher de temperamento difícil. Você não imagina a quantidade de gente que me escreveu falando que "no Brasil não há homem para mim".

 

Às vezes observo casais que mantêm relações mais arquetípicas, a mulher toda fofinha [Luciana faz uma risadinha fina dublando a mulher], ela fingindo que não é uma deusa mítica, a mistura de Kali com Deméter e Afrodite, entendeu? Me sinto um pouco inábil nesse sentido. Tenho uma amiga que brinca mais com isso, sabe se fazer de pudica e vai contando quem ela é lentamente. Minha terapeuta já falou que não pode chegar no cara contando como a gente é, porque assusta. Mas aí eu penso: "vou ficar um ano e meio enrolando para ser quem eu sou, para depois o cara falar que não banca isso?". Não dá.

E os pedidos que você faz no vídeo são muito modestos mesmo. Maturidade, carinho, não estar descaralhado das ideias nem devendo pro agiota… Nem é sonhar alto! Estamos sonhando pequeno.

LP: Acredito que a maioria dos homens têm escolha, que sempre haverá uma mulher menos experiente achando o máximo esse cara que não oferece o mínimo. Estamos forjando novos modelos de relacionamentos, mas talvez a mulher que eu quero ser e o tipo de relação que eu quero ter sejam impossíveis de se realizar neste momento histórico em que vivemos.

Também sei o que acontece quando faço barganhas para ser amada — e consigo observar uma quantidade gigantesca de mulheres que fazem a barganha e pensam "pelo menos não estou solteira" enquanto vivem relações abusivas. Esse gesto de se encolher para caber em relações pode custar a sua vida e tirar toda a sua luz pessoal.

Voltando à Tatá Werneck, vejo, por exemplo, ela beijando os entrevistados no programa e penso no nível de liberdade e confiança que uma relação legal como a dela com o marido exige. Dá um alento no coração testemunhar que dá para ela ser enorme e, ainda assim, ter alguém que segure a onda.

Você gosta da Phoebe Waller-Bridge? Porque, no meu coração, você já é a Fleabag brasileira.

LP: Adoro. Para mim, seria o céu na Terra fazer a versão brasileira dela. E começaria assim:

"Oi, tá vendo esse corpo se mexendo aí na sua frente? Sou eu.
Normalmente, você me vê como a amiga figura da Deborah Secco (oi, Deborah!) ou a empregada da Grazi Massafera (oh, dona Grazi, desculpa aí porque eu derrubei um negócio). Isso é porque eu não sou gata. Mas talvez você esteja um pouco mais perto de mim do que da Grazi Massafera, então, assiste aqui mais 10 minutos e escuta o que eu tenho pra te dizer".

Na minha vida de cinema, sempre achei que no final de uma peça, viria um homem grisalho do fundo da plateia e diria "menina, gostei de você. Vamos fazer um filme?". Ou seja: na minha fantasia, era um homem hétero branco que me salvaria, que me validaria e reconheceria o meu trabalho. Mas os diretores homens não sabem o que fazer comigo, porque é assim: sou meio gostosona, mas ao mesmo tempo tenho uma cara esquisita… Não dá para ser a mocinha. Então, fui quase sempre dirigida por mulheres. Mas o típico diretor que gosta de bons vinhos, de esquiar em Aspen e que tem casa no litoral norte de São Paulo olha pra mim e faz tipo "quê?". Eu dou um"tilt" neles.

 

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Deve ser bem por isso que a Phoebe Waller-Bridge precisou fazer um caminho alternativo. Na sua opinião, qual é o lugar do humor na quarentena? É gafe rir um pouquinho enquanto tudo isso está acontecendo no mundo?

LP: No quinto dia de quarentena, fui parar no hospital com pneumonia e todos os sintomas de Covid-19. Me isolei e, nesse período, eu entrava às vezes no que chamo de "modo La La Land". Acompanhar as notícias do país, naquele estado, não era só chato: me prejudicava fisicamente. A comédia vinha — e ainda vem — num ato político e de transcendência.

Ou seja: talvez a gente precise ainda mais da comédia nesse momento? Porque, em cinco minutos de Twitter atualmente, a gente sente culpa até por estar vivo.

LP: Twitter eu não consigo. É um "hihi", um "haha" e uma adaga no fígado, de repente. As pessoas te atacam das formas mais horríveis, em bando. A gente perdeu a mão na internet. E, a partir de agora, nos comunicamos cada vez mais por ali. O Instagram, atualmente, é meu jardim: aquilo ali toma um tempo da minha vida para fazer, então, para mim, não é qualquer coisa — mesmo que seja para as outras pessoas. No vídeo que viralizou, falei que, para ser o homem da minha vida, o cara não pode ter votado no Bolsonaro. Por causa disso, às vezes aparece alguém me xingando nas mensagens privadas. Quando acontece, respondo: "não divirto bolsominion de graça" e bloqueio. Me reservo o direito de fazer rir apenas àqueles que são #EleNão, já que não ganho dinheiro com isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.