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Fleabag: na vida real, a mulher bagaceira não é tão cativante

Luiza Sahd

15/10/2019 04h00

 

Se você é mulher e ainda não virou uma fleabager, isso é provavelmente uma questão de tempo. A série criada e protagonizada pelo prodígio britânico Phoebe Waller-Bridge ganhou muito mais do que quatro troféus Emmy em 2019. Com "Fleabag", Waller-Bridge se tornou a voz das mulheres de trinta e poucos anos que não "chegaram lá" em nenhum aspecto da vida — afetivo, profissional, acadêmico ou social. Fleabag é tão joana-ninguém que, na trama, não sabemos nem o seu nome.

Em tradução livre, poderíamos dizer que Fleabag significa "bagaceira". Nas duas temporadas produzidas em parceria entre a BBC e a Amazon, a nova anti-heroína das mulheres modernas não cativa pelo seu poder inspiracional, mas pelo carisma. Lembra do meme "fé nas maluca"? Pois essa é a marca registrada não só de Fleabag, mas de todas as protagonistas criadas por Waller-Bridge — seja Lulu, a doidinha cool de "Crashing" (2016) ou Villanelle, a assassina caricata e brilhante da primeira temporada de Killing Eve (2018).

 

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Em primeiro lugar, gostaria de frisar que sou mais uma fleabager e assistiria qualquer coisa assinada por Phoebe Waller-Bridge. Em segundo lugar, preciso admitir que odiaria conviver com suas protagonistas no mundo real.

Para além da inteligência e do senso de humor invejáveis, as mulheres criadas por Waller-Bridge sempre precisam de antagonistas chatas e sem-graça que sirvam de escada para a genialidade de Lulu, de Villanelle ou de Fleabag. Daqui em diante, teremos alguns spoilers.

Em "Crashing", Lulu não é uma mulher dentro dos padrões como Kate — a namorada do melhor amigo por quem a protagonista é secretamente apaixonada. Dá para dizer, inclusive, que Lulu é a própria Fleabag em outra fase da vida. Em "Fleabag", praticamente todas as personagens femininas são chatas por razões variadas. Da irmã certinha e recalcada à madrasta que é completamente descompensada, passando pela melhor amiga que carecia de sangue nos zóio (sic), nossa heroína bagaceira ganhou o carinho do público por ser muito divertida, muito aventureira, muito arrojada… mas sempre pouco generosa com as mulheres que a cercam. Frequentemente, as personagens acabam competindo por atenção masculina (do protagonista padrãozinho em "Crashing" e do pai em "Fleabag").

Não dá para dizer uma coisa dessas sem lembrar que todos nós já agimos assim em alguma curva da estrada. O que complica as protagonistas de Waller-Bridge, entretanto, é que a competição com "mulheres chatas" seja uma assinatura de todas elas.

Fleabag ou Lulu são mulheres meio doidas, imperfeitas e interessantes que magnetizam a atenção do público e se tornam personagens irresistíveis, inesquecíveis e impossíveis de imitar. Se não for sonhar muito alto, adoraria que as próximas parassem de sentar nos próprios defeitos — notadamente, no egoísmo — para se autoafirmar.

Ainda que as personagens extremamente bagaceiras, cativantes e autocentradas de Waller-Bridge tenham momentos de lucidez e autocrítica mordaz, elas seguem o baile causando transtornos para si mesmas e para os outros como se fosse suportável, apesar de tudo, viver assim.

Na contramão dessa fórmula de loucurinhas tragicômicas, a segunda temporada de Fleabag traz momentos de redenção da protagonista com os familiares, com o amor romântico e até com ela própria. Na reta final, vemos uma protagonista menos cínica, acertando as contas com os erros que cometeu enquanto tentava se divertir ou impressionar as pessoas.

Desejo duas coisas de todo coração: que Phoebe Waller-Bridge continue criando personagens que nos descoloquem para sempre — e que essas personagens possam mostrar como é perfeitamente possível ser bagaceira, meio doida e charmosa sem ferir ou competir tanto com antagonistas cinzentas. É o caminho natural do crescimento e, até aqui, Waller-Bridge já é enorme.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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