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Zetna Fuentes: a mente por trás de 'versão feminina' da lenda do Rei Arthur

Luiza Sahd

08/07/2020 04h00

A diretora Zetna Fuentes e o ator Gustaf Skarsgård, o Merlin de "Cursed". (Foto: Divulgação)

Imagine uma versão da saga do Rei Arthur em que ele é negro, a história é protagonizada pela Dama do Lago, o Merlin não é um velhinho (inclusive, é sedutor — mas mentiroso compulsivo e alcoólatra), a antagonista é mulher e convive com um casal lésbico de freiras. Essa é a aposta de "Cursed", com estreia mundial prevista para 17 de julho na Netflix.

Baseada em um best-seller do New York Times e criada por Tom Wheeler e Frank Miller, a série aposta ainda em outros temas atuais — como a defesa de povos originários e intolerância religiosa. Apesar de ser uma história secular, a versão moderna da lenda é uma adaptação para jovens adultos e conta com estrelas como Katherine Langford (de "13 Reasons Why") e Devon Terrell (conhecido por interpretar Barack Obama no filme "Barry"). Orquestrando tudo isso está Zetna Fuentes, diretora da série e mulher negra que saiu do Bronx para Hollywood.

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O nome de Fuentes pode não ser familiar a todos, mas seus principais trabalhos, sim: ela já dirigiu episódios de séries como "Grey's Anatomy", "Pretty Little Liars", "Jessica Jones", "Scandal", "Jane a Virgem", e "How to Get Away With Murder", para citar apenas algumas. Quando questionada sobre o caráter simbólico de dirigir uma série sobre lutas de espadas protagonizada por uma mulher em uma indústria tão masculina, Fuentes mostra por que chegou onde chegou.

"Sempre tivemos heróis masculinos, ou super-heróis, homens liderando, homens poderosos. Ver uma mulher desempenhando esse papel foi especial. Lembro quando a Katherine empunhou a espada pela primeira vez nas gravações. Pensamos 'que momento potente!'. Ao mesmo tempo, queríamos que ela fosse uma heroína como é qualquer outro herói. Sim, ela é uma mulher — e uma mulher jovem –, mas queríamos fazer com que a experiência de vê-la nas telas fosse semelhante a que se sente normalmente vendo histórias de super-heróis", explica.

"Quanto a mim, o que busco no meu trabalho é sentir como vão as coisas e não limitar minha experiência como 'feminina'. A luta existe, sou otimista e acho que estamos nos movendo na direção correta, mas tudo o que queremos, como mulheres diretoras, é aquilo o que qualquer pessoa nesta posição quer: contar histórias incríveis, descobrir coisas novas, ter acesso aos mesmos recursos que os demais criadores têm. E, claro, liberdade para criar, porque as portas ficaram fechadas por tanto tempo!"

A protagonista da série, Katherine Langford, também falou da experiência de manusear espadas, montar a cavalo e fazer cenas coberta de lama ou sangue cenográfico, como faria um gladiador.

Por falar em liberdades, Fuentes não parece temer o hate dos fãs mais conservadores da lenda do Rei Arthur quando transforma personagens tradicionais em "desconstruidões". "Tom Wheeler e Frank Miller tinham esse roteiro apaixonante em mãos e quisemos experimentar coisas novas. É uma fantasia, então quisemos aproveitar para explorar as possibilidades que a lenda oferece sem ficarmos tão presos à forma como as pessoas imaginam que é o Merlin ou Rei Arthur", responde, fazendo gracejos, quando pergunto se as discussões para arredondar o roteiro sem fazer parecer forçação de barra foram fáceis.

Durante a conversa, Fuentes é simultaneamente doce e firme, evitando colocar muito foco em sua longa — e provavelmente árdua — trajetória artística até conquistar a cobiçada cadeira de diretora em um mercado idílico como o do cinema. Ela saiu da periferia de Nova Iorque e passou pelos cargos de assistente pessoal, gerente de locação, editora, assistente de direção e finalmente diretora de teatro antes de começar a trabalhar na TV, em 2007.

Fuentes e os protagonistas de "Cursed". (Foto: Divulgação)

Quando fala das minorias retratadas em "Cursed", por outro lado, Fuentes vibra. "Como mulher negra, lembro de assistir TV, ver esse tipo de história e não me ver representada ali. Agora, tive a oportunidade, nesse projeto, de retratar um mundo de fantasia da minha perspectiva de mundo — e da perspectiva de muita gente que não teve essa chance. Temos grandes artistas, brilhantes, que não tiveram oportunidades assim antes."

Pergunto se Fuentes acha que outras lendas seculares mereciam ganhar versões menos patriarcais em adaptações para streamings. "Espero que sim! Acho que não basta pegar qualquer saga e substituir homens por mulheres ou incluir minorias aleatoriamente. Você precisa sempre de uma história boa, que faça sentido no mundo atual, com perspectivas que ainda não foram exploradas. Se for assim, muitas lendas merecem ser contadas de formas novas, com outros pontos de vista."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.