PUBLICIDADE

Topo

Recessão afetiva: antes, era tabu fazer sexo. Agora, o tabu é se apaixonar

Luiza Sahd

01/07/2020 04h00

Ilustração: Reprodução/ Yuval Robichek

 

 

"O problema das mulheres é que elas só querem transar com quem casariam", ouvi de um conhecido numa festa. Gastei algum tempo explicando que mulheres têm questões de ordem social, psíquica e até motivos fisiológicos para serem exigentes na escolha de parceiros sexuais.

Para começar, pessoas com clitóris não gozam rapidamente, como expliquei melhor aqui. Além disso, buscamos um mínimo de informações e garantias de que não corremos risco de sofrer, por exemplo, violência sexual num encontro besta (spoiler: a gente sempre corre). Por último e não menos importante, todo mundo sabe que transar quando e com quem quiser não é social ou psicologicamente simples para a maioria esmagadora das mulheres — como poderia ser para o conhecido em questão. Somos criadas para cultivar uma vida sexual discreta.

Veja também

Depois do debate sobre binaridade, fiquei intrigada e perguntei ao amigo se ele não curtia criar uma historinha, uma paixonite, um envolvimento antes do sexo casual. Ele disse que até aprecia tudo isso, mas não faz questão: como está em um casamento não-monogâmico, alimenta a afetividade com o parceiro e coloca o sexo em outro departamento. Fiquei contente por saber que, em algum lugar, ele ainda mistura sexo e afeto.

Como nossos pais?

O Belchior bem que lançou a braba nos anos 1970 dizendo que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais", mas muita coisa mudou no coração das pessoas nascidas entre os anos 1980 e 2000. Se o sexo livre era um tabu para nossos pais ou avós, agora, o sexo no primeiro encontro é liberado — mas se apaixonar prontamente é tabu, sim.

Um estudo de 2018 do U.S. Census Bureau demonstrou que os norte-americanos estão se casando por volta dos 30 anos de idade; em 1980, a maioria das pessoas se casavam entre os 22 e os 25 anos. Outro levantamento do grupo apontou que casais com idades entre 25 e 34 anos passam, em média, seis anos e meio juntos antes de se casarem; a média para outros grupos etários é de cinco anos. O mundo mudou para todos.

Em um artigo publicado no The New York Times, a escritora Tara Parker-Pope defende que a saturação digital transformou a geração nascida depois dos anos 1980 em "pessoas mais socialmente isoladas, inquietas e exigentes" — o que poderia explicar por que o sexo, muitas vezes, é visto como algo menos significativo do que o amor, os laços afetivos ou, muito simplesmente, intimidade. Ela usa o termo "recessão sexual" para mencionar que essa geração faz menos sexo, mas prefiro acreditar que passamos por uma "recessão afetiva": em 2020, amizades coloridas são mais fáceis de emplacar do que romances — principalmente porque os solteiros de hoje querem saber o máximo possível sobre um parceiro em potencial antes de gastar tempo, energia ou dinheiro em um namoro.

A dificuldade de encontrar o contatinho ao vivo

Em uma pesquisa realizada pelo Match.com, 34% dos solteiros alegam que fazem sexo virtual antes do primeiro encontro, como se fizessem uma "entrevista de sexo" antes de ver se vale a pena encontrar mesmo. Esse é um dos critérios que as pessoas avaliam para migrar da paquera virtual para a analógica.

Mesmo antes do isolamento social que está matando os solteiros de libido acumulada (e matando a libido das pessoas casadas), puxe aí pela memória: fazer um romance passar do smartphone para a cama aí da sua casa já não andava fácil. Com todas as pessoas do mundo se tornando mais criteriosas, as chances de que duas queiram coisas parecidas para a vida é mínima — e a tolerância com quem não corresponde às nossas expectativas prioritárias, também.

Você pode ter atração sexual por alguém e achar o papo da pessoa um saco. Pode gostar do papo e rolar match sexual, mas discordar de todas as opções de vida do pretendente. Pode ser que vocês combinem em muitas coisas, mas queiram morar em cidades diferentes. A relação de vocês com família, dinheiro, filhos, drogas ou religião pode ser divergente num nível que inviabiliza qualquer relacionamento mais sério do que uma noite de sexo. A verdade é que, em uma sociedade extremamente individualista que vende experiências altamente customizáveis, tudo pode dar errado quando ninguém anda muito a fim de fazer concessões para "requisitos" que o paquera não preenche.

Se encontrar alguém compatível para transar já é difícil; se apaixonar, então, passa a ser quase um milagre — que depende não só de um, mas de dois millennials ou gen Z dispostos a abrirem mão de toda uma lista de critérios pré-estabelecidos, de maneira mais ou menos inconsciente, para seus parceiros.

 

No final das contas, o conhecido que falou sobre a dificuldade das mulheres em transar com qualquer um não estava tão errado: pelos motivos mais variados, pessoas de gêneros e orientações sexuais diferentes andam com uma dificuldade imensa de terem encontros românticos ou eróticos com interesses recíprocos. O que une todas essas tribos é o constrangimento que uma paixonite impertinente pode representar: nada mais descabido, hoje em dia, do que sair se apaixonando por alguém que ainda não te avaliou em todos os incontáveis critérios necessários para que uma relação moderna engate.

Criar "historinha" com alguém costumava ser uma delícia, mas virou tabu — e essa é a má notícia. Atualmente, as pessoas têm tanto pavor de ofender alguém com afetos desproporcionais que simplesmente deixaram de arriscar grandes demonstrações de paixão e tiram sarro de quem ainda curte isso aí, como o amigo lá da festa. O último romântico aplaudido pelo Brasil foi provavelmente Roberto Carlos, em 2012, quando gravou "Esse Cara Sou Eu".

Para os cientistas que conduziram os estudos supracitados, a que boa notícia é que gente mais desconfiada para se relacionar tem chances menores de embarcar em namoros furados. Adoro confiar na ciência — principalmente em época de pandemia –, mas algo me diz que, nesse assunto, a gente deveria estar pedindo ajuda para quem entende de amor, tipo artistas e poetas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.