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Durante pandemia, voei até a Espanha e resgatei minha cachorra

Luiza Sahd

13/05/2020 04h00

Um dia eu quero pegar essa foto, mostrar pra alguém bem jovem e fazer essa pessoa pensar: "eu não acredito que esta senhora vai repetir essa história novamente!"

Há um mês, contei aqui no blog sobre um sofrimento pessoal de quarentena: por causa da pandemia, minha cachorra ficou isolada em um continente, e eu, em outro. Para entender como isso foi acontecer, você pode ler este post aqui. Em linhas gerais, podemos resumir que dei muito azar e passei três meses chorando.

Desde abril, quando compartilhei essa história, recebi de um tudo: hostilidade, porque minha dor era ínfima comparada à dor de tantas famílias abandonadas pelo Estado — e é mesmo, nunca duvidei; sugestões infelizmente ineficazes sobre como eu poderia tentar transladar minha cachorra ao Brasil; palavras de apoio; fotos de pets alheios para alegrar meus dias e até orientações sobre como chegar à Espanha via Alemanha para resgatá-la. Essa última ideia foi realmente tentadora.

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Quando descobri essa possibilidade, me apeguei ao último fiapinho de lucidez que resta à gente que passa dois meses trancada em casa, morrendo de saudades do seu bicho e de ter liberdade, para concluir que seria um desvario pegar um avião, nessas condições, para recuperar minha cachorra. Mas quis o destino que eu tivesse motivos ainda mais urgentes para embarcar nessa furada.

Há cinco anos, faço a tramitação da minha nacionalidade espanhola. Neste mês de maio, se a vida tivesse seguido seu curso normal, eu teria que comparecer a um registro civil de Madrid, pessoalmente, para assinar papéis do processo. Com as paralisações causadas pela pandemia, eu imaginei — como você deve estar imaginando aí — que essa burocracia seria cancelada por motivos óbvios. Não foi.

Telefonei para o Ministério da Justiça espanhol, contei minha situação de isolamento no Brasil e fui informada de que era isso aí mesmo: se eu não comparecesse ao compromisso de Madrid na data estipulada em janeiro, perderia minha dupla nacionalidade. Eu já havia perdido temporariamente a minha cachorra por causa da pandemia — e não estava a fim de perder, também, um empenho de meia década por causa dela.

Haja coração, amigo

Com o coração batendo na garganta, marquei minha viagem a Madrid em meio ao caos global. Juntei um arsenal de máscaras, de álcool gel e de coragem — já que o pavor de voar eu tenho desde muito antes do advento da Covid-19 — e foquei minha atenção àquilo com o que eu vinha sonhando há três meses: reencontrar minha cachorrinha e contar que ela não tinha sido abandonada por mim. É realmente compreensível que não existam carros voadores em 2020, mas acho revoltante que ainda não se tenha inventado um jeito de explicar esse tipo de coisa para mamíferos tão espertos e dependentes da gente.

A viagem foi, no mínimo, assustadora. Além de encarar dois voos completamente lotados, da paranoia de circular em três aeroportos diferentes em contexto de pandemia e da turbulência inesquecível que enfrentamos no último trecho da viagem, existe sempre a perspectiva de manifestar sintomas de Covid-19 após tanta exposição. Aqui, documentei a saga de São Paulo a Madrid — e o tão esperado momento do reencontro. Não nego nem confirmo que temi que desse um treco em mim ou na Hebe de tanto chorar.

Agora, tenho um mês de quarentena pessoal pela frente: 14 dias isolada aqui em Madrid e mais 14 na volta, em São Paulo, para não contaminar ninguém depois de voar. Pelas janelas da casa onde me confinei, é possível farejar o ânimo que a chegada da primavera e a permissão de praticar esportes em horários restritos trouxe aos espanhóis. Em todo caso, tenho certeza que ninguém neste país está mais feliz do que estou agora, com esse reencontro.

Nos últimos dias, me sinto desaforada por encontrar tanta satisfação durante uma crise global dessas proporções. Então, afundo a cara numa almofada e grito de alegria para não alardear a vizinhança. Tenho certeza de que, em algum lugar, outras pessoas também estão encontrando euforia em pequenos prazeres cotidianos que não recebiam a devida atenção — ou que pareciam não ter tanto valor porque eram satisfações garantidas. Agora, ameaçadas, fica claro o que elas realmente são: preciosas.

Hoje faz uma semana que cheguei e o tempo virou em Madrid: garoa, faz frio e venta gelado. Acordei com a garganta fisgando. A cada meia hora, abraço a cachorra e aproveito para conferir como vai meu olfato cheirando o cangote dela. Por um bom tempo, todos nós vamos viver com medo, abraçando os poucos que podemos abraçar e apreciando muito esse gesto. O privilégio do abraço é provavelmente o aspecto da pandemia que vai marcar minha memória pelo resto da vida.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.