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Volta de Fátima Bernardes aos estúdios é questão de saúde pública

Luiza Sahd

22/04/2020 04h00

Durante pandemia, minha avó não me escuta — mas a Fátima ela vai escutar sim. (Foto: Reprodução/ Instagram)

 

Fátima Bernardes se tomou um dos assuntos mais comentados da internet na última semana por motivo torpe: ela confundiu o nome do atual namorado com o nome do ex. Todo mundo já fez isso alguma vez na vida e Fátima, por ser a Fátima, teve que aguentar sanha do internauta médio por tretas sem importância.

Nesta semana, meu sonho é que a Fátima se torne novamente destaque nas redes sociais — mas, desta vez, pelo motivo certo: sua volta aos estúdios da Globo para apresentar o "Encontro com Fátima Bernardes" ao vivo pode fazer mais pela saúde pública no Brasil do que muitos líderes políticos têm feito — inclusive porque uma quantidade imensa de brasileiros prefere negar os fatos e desacreditar do jornal, do cancelamento das Olimpíadas, da novela, dos campeonatos de futebol… Enfim, do que está acontecendo no mundo inteiro.

Na Fátima, entretanto, é possível que essa galera acredite. Senão, vejamos.

 

No "Encontro" desta segunda-feira (20), a apresentadora abriu o programa comentando que, após cinco semanas fora do ar, ela sentia um "friozinho na barriga como se fosse uma nova estreia". O programa, sem plateia, contava apenas com Fátima e o médico Jairo Bouer conversando com distância superior a dois metros no palco. Este foi o primeiro bom exemplo do dia, mas não parou por aí.

Jairo Bouer abriu os trabalhos ressaltando a importância da informação nesse momento, enquanto o primeiro convidado do programa, o ator Felipe Simas, deu entrevista remotamente contando que foi contaminado pela Covid-19 — apesar de ser jovem e não fazer parte do grupo de risco para a doença.

Quando Simas explicou que mora com a esposa e os filhos — mas a parceira testou negativo para Covid-19 — Bouer aproveitou o momento para explicar que algumas pessoas podem ser assintomáticas. O programa foi eficiente em trazer rostos e humanidade para as histórias da pandemia. No caso de Simas, o ator explicou como a família manejou o isolamento dentro de uma mesma casa e detalhou a dureza de não poder abraçar os filhos ou de ficar trancado em um quarto durante 15 dias para não colocar a esposa (que ainda está amamentando!) e os pequenos em risco.

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Além de humanizar as dificuldades dos convidados durante a adaptação ao cenário catastrófico que estamos vivendo, programas como o "Encontro" podem ser um respiro das notícias mais duras e trazer exemplos sutis sobre nossa própria conduta nesse momento.

Todos nós — mesmo os que acreditamos na pandemia e na eficácia do distanciamento social — temos ou tivemos alguma dificuldade para implementar o costume de cumprimentar as pessoas de longe, sem tocar ou abraçar. Enquanto ainda não estava em sistema de trabalho home office, eu ficava muito sem graça de não cumprimentar com beijo no rosto os colegas de sempre. Ver as pessoas se cumprimentando de longe ou com os cotovelos na TV (como faz Tiago Leifert com os eliminados do BBB) facilitou meu entendimento sobre como lidar com esse inconveniente.

Ver a Ana Maria Braga falando de longe com a Fátima ou a Fátima se mantendo distante de seus convidados — mesmo que estejam no palco — também são lições não-verbais sobre como se portar durante a pandemia. Uma entrevista carinhosa e fisicamente distante é, em última análise, uma aula sobre o que fazer com o corpo nesse período, sobretudo para quem ainda não sabe se deve acreditar no que está acontecendo. Essa convivência afetiva com uma apresentadora fazendo o que todos nós deveríamos fazer pode ajudar muita gente a naturalizar as medidas de segurança contra a Covid-19.

Prova disso é o número de vezes em que avisamos nossos pais, tios ou avós sobre os riscos de ter contato físico com as pessoas ou sobre a importância de ficar em casa. Sempre que falo disso com minha avó, ela acaba encontrando um momento oportuno na conversa para esfaquear meu coração e pedir uma visita. Ela não acredita quando digo que é tudo muito arriscado, mas na Fátima repetindo a mesma mensagem todos os dias — de forma verbal e não-verbal — eu acho que ela vai acabar acreditando.

Mais do que entreter a audiência, os programas de "variedades" na TV têm uma função muito importante que passou a ser mais valorizada durante a pandemia. Eles têm o poder de colocar um emissor mais confiável do que qualquer repórter, parente ou líder político na TV para repassar informação útil a uma audiência apaixonada.

Diz o poeta que vemos melhor com o coração e, para quem não quer ou não consegue ainda aceitar a gravidade do que está acontecendo — já que não podemos enxergar ou tocar o inimigo no caso do novo coronavírus –, a volta de Fátima Bernardes é um gesto bonito em meio à pandemia.

Mesmo que ele tenha sido motivado por obrigações menos nobres do que a missão de dar bons exemplos ou de informar a população, o resultado acaba sendo exatamente esse. Mal não faz, e não fazer mal à população que vive sob o governo negacionista que vivemos não é pouca coisa, não.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.