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Eu sei por que Simony não agrediu Dudu Camargo após assédio

Luiza Sahd

25/02/2020 04h00

No ar, ao vivo, Dudu Camargo apalpou os seios e outras partes do corpo de Simony. (Foto: Reprodução/RedeTV!)

Na madrugada deste sábado de Carnaval (22), a cantora Simony fez sua estreia como apresentadora e crítica do Carnaval da RedeTV! ao lado do veterano Nelson Rubens. Durante um link ao vivo, a dupla entrevistou Dudu Camargo, âncora do telejornal Primeiro Impacto, exibido pelo SBT.

Durante quase cinco minutos, o público testemunhou uma lasanha de assédios contra a apresentadora estreante: de um lado, Dudu Camargo tocou Simony de forma desrespeitosa (e à força) diversas vezes. Do outro, Nelson Rubens estimulava a "brincadeira" como se fosse normal o que estava acontecendo ali.

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Depois do programa, Simony disse que se sentiu constrangida pelos dois apresentadores e que "teria dado porrada em Dudu Camargo se não estivesse no ar ao vivo". Ela também garantiu que tomará providências contra o colega do SBT; após o ocorrido, uma especialista em Direito Penal confirmou que a atitude de Camargo pode ser interpretada como crime de importunação sexual.

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Assédio é praxe em certas empresas

Diante do absurdo da situação, ao invés de concluir o óbvio — que qualquer insistência depois do primeiro "não" é um assédio — muita gente ainda defende Dudu Camargo na internet: uns dizem que Simony se queixou de ser molestada só para ganhar atenção midiática, outros apontam que a apresentadora não reagiu de forma assertiva ao ser tocada de forma inapropriada e tem até quem argumente que a roupa de Simony era indecente (o bom, velho e asqueroso "a moça estava pedindo").

Morro de curiosidade para saber o que esse pessoal faria se fosse apalpado na televisão, ao vivo, no primeiro dia de trabalho em um emprego novo, sem que o chefe esboçasse sinal de que sairia em sua defesa. Quem desmerece a queixa da apresentadora está tão surdo quanto Dudu Camargo para as oito vezes (eu contei, pode contar aí na sua casa também) em que Simony repetiu que não estava gostando das brincadeiras dos apresentadores.

Entendo perfeitamente a frase de Simony ("teria dado uma porrada em Dudu se não estivesse ao vivo") porque também passei por isso. Diversas vezes, na verdade. O assédio faz parte da cultura de algumas empresas.

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Em 2006, eu tinha 21 anos e trabalhava como secretária em uma empresa de engenharia sediada em uma zona nobre da Grande São Paulo. O escritório era um ambiente cheio de líderes homens e assistentes mulheres e, enquanto trabalhei lá, fui obrigada a participar de rituais diários de assédio físico e moral às secretárias.

Quando recebia visitas de clientes, o dono da empresa interfonava para a recepção e mandava entrar uma secretária de cada vez na sala de reuniões. Quando entrávamos na maldita sala, o chefe começava a alisar nossos braços, cintura ou cabelos enquanto falava animadamente sobre nossos atributos físicos para uma meia dúzia de senhores de meia idade como ele. A situação era sempre tão degradante que nenhuma de nós queria servir café, repor água ou entregar relatórios para aqueles senhores nessas ocasiões.

Cansei de me esconder no banheiro da firma simulando piriri para não participar desse espetáculo desrespeitoso — mesmo não tendo tanta clareza do que estava acontecendo, como teria hoje. Na época, nossas alternativas eram escassas: a gente poderia se esconder de vez em quando, aguentar o assédio sorrindo na maioria das vezes ou se indispor com o chefe, correndo o risco de perder o emprego. Ninguém nunca se indispôs. Todo mundo precisava muito do trabalho.

Assim como a Simony falou sobre o devaneio de jantar Dudu na porrada, eu e minhas colegas quisemos muito bater no chefe sádico de 2006 — e em todos os homens ricos, poderosos e bem-instruídos da sala de reuniões que compactuavam com os rituais degradantes de assédio às secretárias; assim como nós , Simony foi assediada em circunstâncias particularmente complicadas: era a estreia dela como apresentadora do programa e ninguém quer chegar no trabalho novo fazendo barraco. No final das contas, todas nós fomos constrangidas por homens ricos, poderosos e bem-instruídos.

A lei que criminaliza a importunação sexual é uma vitória imensa em um país que oferece uma infinidade de derrotas para as mulheres todos os dias. A partir de agora, o desafio será ver essa lei funcionando mesmo quando afeta gente poderosa como Dudu Camargo, que é amparado por Silvio Santos e por toda a equípe jurídica do SBT.

Se estivéssemos em um país sério, Dudu Camargo já teria sido indiciado pelo assédio na televisão, inclusive porque outras pessoas além da própria vítima podem denunciar importunadores. Por aqui, torço muito para que Simony faça mesmo a denúncia, para que ela não perca seu emprego por causa da queixa de assédio e para que a gente possa, com isso, acreditar que conquistamos direitos mínimos — como o de trabalhar sem ter o nosso corpo violado impunemente.

É um mínimo muito mínimo mesmo, mas como é difícil.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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