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"Novinhas”: 5 conselhos sobre sexo que gostaríamos de ter ouvido antes

Luiza Sahd

11/02/2020 04h00

O pior jeito de começar uma conversa franca sobre sexo é começar cheia de dedos. (Ilustração: Reprodução/ YeahYeahChloe)

 

O Carnaval está chegando e sabemos que, com ele, chega também a alta temporada de pegação no Brasil. Foi justamente esse período especial do ano o escolhido por Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, para implementar uma campanha de iniciação sexual tardia como política pública de prevenção à gravidez na adolescência.

Além da indignação pela ingenuidade da proposta (e pelo estilo barroco dessa iniciativa em pleno Carnaval 2020), o lançamento da campanha pela abstinência sexual dos jovens levantou debates importantes sobre sexo na adolescência.

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Há algumas décadas, temos evidências claras de que é mais eficiente instruir um adolescente sobre sexo seguro — e torcer pelo melhor — do que tentar reprimir os hormônios desvairados da imensa maioria dos adolescentes, que eventualmente continuarão praticando sexo desprotegido por falta de educação adequada para lidar com o próprio corpo e com o corpo alheio.

Enquanto acompanhava o debate público sobre a campanha de iniciação sexual tardia, fiz o que toda pessoa mais lúcida do que Damares Alves deveria fazer: assisti duas temporadas de Sex Education — série da Netflix que trata de sexualidade na adolescência com mais responsabilidade, honestidade e respeito aos jovens do que nossa ministra tem tratado.

Acompanhando a série, desejei ardentemente poder viajar no tempo e voltar a ter 16 anos como os personagens de Sex Education. Se isso fosse possível, eu teria passado por muito menos perrengues e aflições no início da minha vida sexual. Como aluna de uma escola de freiras e de uma escola pentecostal na adolescência, atesto e dou fé que o ensino religioso não prepara ninguém para sentir qualquer coisa diferente de pavor da própria sexualidade, como se sexo só servisse para reprodução ou propagação de ISTs.

Já que não tenho o superpoder de viajar no tempo para orientar a Luiza de 16 anos — que achou, por exemplo, que a primeira candidíase da vida era uma alguma doença transmissível e letal que tinha atravessado o preservativo –, deixo aqui algumas palavras que eu gostaria de ter recebido quando era novinha.

A palavra "novinha" é péssima
Ninguém avisa quando a gente é adolescente, mas quem tem atração específica por "novinhas" é gente que dificilmente vai enxergar algo além de um corpo jovem a ser explorado, como se a personalidade e as vontades de alguém com pouca idade não fossem importantes — e essas são as coisas mais importantes que uma pessoa pode ter em qualquer idade.

Você não perde nada quando perde a virgindade
Ao contrário do que Damares Alves prega hoje sobre almas gêmeas, quem que trata a própria virgindade como um presente para outra pessoa tem imensas chances de sofrer demais caso o outro não encare esse "presente" como um compromisso de amor eterno. A própria expressão "perda da virgindade" é horrível porque fica parecendo que as meninas que iniciam a vida sexual perdem algo importante ou sagrado.

Na verdade, quem "perde" a virgindade está ganhando uma jornada de descobertas sobre si mesma, sobre as pessoas e sobre afeto.

Seu corpo é sagrado sim
Mas não sagrado tipo o da Virgem Maria. O corpo de qualquer pessoa é sagrado porque ninguém pode ou deve tocar nenhum corpo sem consentimento. Todos os envolvidos precisam estar felizes e à vontade durante todas as situações sexuais: não é normal sentir dor, não é normal fazer o que a gente não gosta para agradar o outro. Sexo saudável é, acima de tudo, sexo confortável.

Quem sabe melhor é o ginecologista
Durante a nossa adolescência, muitas pessoas podem influir naquilo que a gente acha que é certo ou errado sobre sexo. Familiares e amigos bem-intencionados ou professores bem-preparados podem ajudar nessa jornada, mas é importante saber que eles nem sempre têm as melhores respostas sobre o que é ou não é seguro no sexo.

Sexo seguro é mais gostoso porque não causa estresse — e quem tem a maioria das respostas verdadeiras sobre isso é o ginecologista. A vida sexual das mulheres teria sido mais fácil, desde sempre, se todas nós tivéssemos acesso a uma consulta com esses profissionais antes de qualquer iniciação erótica.

Não transe se você não puder falar de sexo com o parceiro
É natural sentir vergonha de falar sobre sexo quando a gente começa a vida sexual, mas o jeito mais seguro e confortável de transar ainda é construir essa liberdade com o parceiro. Mais importante e mais urgente do que atrelar sexo ao amor é atrelar o sexo à confiança.

Ninguém deveria transar com pessoas sem conseguir conversar francamente sobre proteção, prevenção de doenças e gravidez, do que a gente gosta e, principalmente, do que a gente não gosta. Sexo serve para a gente se sentir feliz, não para agradar ou desagradar os outros. O jeito mais seguro de fazer é quando todos estão conscientes do que estão escolhendo, juntos e com respeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

Blog da Luiza Sahd