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Bolsonaro fala de perversão; S. Santos beira pedofilia com misses infantis

Luiza Sahd

24/09/2019 12h41

Na tarde do último domingo (22), o apresentador Silvio Santos comandou uma nova edição do Concurso Miss Infantil durante seu programa no SBT, pedindo que o auditório opinasse sobre a beleza de meninas de até 10 anos de idade: "Vocês do auditório vão ver quem tem as pernas mais bonitas, o colo mais bonito, o rosto mais bonito, e o conjunto mais bonito", explicou. 

Na manhã desta terça-feira (24), em discurso na sede da ONU em Nova York (EUA), Jair Bolsonaro se queixou que a "ideologia de gênero" estaria pervertendo nossas crianças. A amizade entre o presidente e o dono do SBT é pública e notória — e, ainda que seja difícil imaginar algo mais perverso do que expor corpos de meninas de maiô em rede nacional para que adultos opinem sobre eles, o presidente parece confortável com esta modalidade de perversão. Apesar de dizer que está preocupado com nossas crianças, Bolsonaro tampouco se pronunciou sobre a morte de Ághata Félix, de 8 anos, morta no sábado, segundo a família, por um policial militar. 

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Em julho deste ano, Silvio Santos já havia recebido críticas por conta do mesmo concurso de misses infantis. No dia 7 de setembro, o apresentador esteve ao lado do presidente durante o desfile cívico-militar em comemoração à Independência do Brasil. Ao que tudo indica, nem ele nem Bolsonaro se deram conta de que um concurso de miss infantil nesses moldes é a coisa mais próxima da pedofilia que se pode exibir em uma rede de televisão.

Nem todas as pessoas do mundo têm ou desejam ter filhos, mas a infância é um assunto de todos. Todo mundo foi criança. Muitas crianças sofreram de abusos de ordem física ou mental, como foi o meu caso, contado aqui neste post. Quer as pessoas falem do assunto, quer prefiram esquecê-lo debaixo do tapete, os pedófilos existem e seguramente adorariam consumir esse tipo de atração — e digo isso com a segurança de quem conviveu por anos com um pedófilo .

Não existe absolutamente nenhum argumento que possa justificar a criação de um quadro assim, na televisão, como forma de entretenimento. Pensando na sua infância, responda sinceramente: você acha que uma criança deveria ser avaliada de acordo com a beleza de suas pernas, colo, rosto e conjunto da obra? Se fôssemos justos, chegaríamos à brilhante conclusão de que nenhum ser humano deveria ser avaliado por esses critérios, mas uma criança não deveria passar por isso sob nenhuma hipótese.

Colocar meninas de maiô no palco para contemplação de seus dotes físicos é sexualizar precocemente esses crianças — de forma extremamente cruel, diga-se, já que elas ainda não têm (e nem deveriam ter mesmo) habilidades psicológicas totalmente desenvolvidas para decidir se um desfile seria bom para a cabecinha delas. Pode parecer muito legal para uma pré-adolescente se arrumar e desfilar para uma audiência tão grande, mas isso não deveria parecer nem razoável para qualquer adulto com a cognição funcionando plenamente.

Muitas pessoas poderiam responsabilizar os pais das crianças ou as juradas da atração (Chris Flores, Helen Ganzarolli e Thais Pacholek) por compactuar com essa insanidade. Essas pessoas não deveriam mesmo dormir com tranquilidade depois de explorar menores dessa forma para ganhar dinheiro. Mas sabe quem é a pessoa que investe sua fortuna em uma empreitada dessas? Silvio Santos. E se tem uma pessoa que deveria responder por esse erro grotesco é ele. O dinheiro é um ótimo argumento para persuadir pessoas ambiciosas a levarem esse tipo de ideia estapafúrdia a cabo — e ele é o homem do dinheiro.

As únicas pessoas mais culpadas do que Silvio Santos por essa exploração infantil na mídia, aliás, é o público consumidor desse tipo de atração. O negócio do dono do SBT, claramente, é ganhar dinheiro. Se não ficássemos quietos assistindo ao espetáculo bizarro, ele não teria por que investir em uma atração que beira a pedofilia. 

Nossa sociedade não está doente: ela é cruel. E Silvio Santos financia orgulhosamente essa crueldade. Uma bela forma de "deixar nossas crianças em paz" seria começar por não expor o corpinho delas para julgamento de adultos e falar sobre o que realmente as está matando, como o caso de violência policial que interrompeu a vida de Ághata Félix. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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