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Luiza Sahd

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Caso Felipe Neto escancara ativismo da encheção de saco

Luiza Sahd

11/09/2019 04h00

(Reprodução/ Instagram)

Na última semana, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), e o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Claudio de Mello Tavares fizeram o possível e o impossível para censurar a venda do gibi "Vingadores – A Cruzada das Crianças" na Bienal do Livro. O motivo: a HQ retrata um beijo entre dois super-heróis homens. 

Como é de se esperar em um país que tem o casamento homoafetivo reconhecido por lei e no qual a LGBTfobia é considerada crime pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a iniciativa do prefeito carioca incomodou muita gente de dentro e de fora da comunidade LGBT. Quando a Secretaria Municipal de Ordem Pública do Rio de Janeiro começou a vasculhar os 150 estandes da Bienal em busca de obras considerada "impróprias" para crianças, o youtuber Felipe Neto comprou 14 mil exemplares de livros de temática LGBT para distribuir gratuitamente no sábado (7), em frente ao evento. 

Resultado: a censura de Crivella falhou, o beijo censurado virou destaque nos mais importantes veículos de imprensa do país e Felipe Neto, que salvou o dia, tomou porrada de todos os lados — inclusive de ativistas LGBT. Para muitos militantes da internet, Felipe Neto estaria monetizando uma causa que não lhe diz respeito, já que o youtuber se identifica como heterossexual; alguns dizem que a intenção do influenciador era simplesmente roubar o protagonismo da discussão e outros lembram que, em um passado não muito distante, Felipe Neto estava fazendo piadinha transfóbica em seu canal, que conta hoje com 34 milhões de assinantes.

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A pergunta que não quer calar diante de todo esse quiprocó foi resumida brilhantemente em apenas um tweet:

O "sommelier de ativismo" é realmente uma pedra no sapato de ativistas sérios — aqueles que militam com a intenção sincera de gerar transformações e mudanças de mentalidade no próprio entorno. Note: sempre que alguém ganha destaque midiático por ter defendido alguma causa progressista, chega um bando de sommelier de ativismo (ou o ativista de encheção de saco) para desqualificar a pessoa que fez algo positivo, generoso ou simplesmente decente. O Brasil está desmoronando, mas o ativista que milita para ganhar retweet não está nem aí: ele quer desconstruir a desconstrução para provar que a visão dele é a mais sagaz de todas as redes em todos os países nos últimos tempos. Que canseira.

O ativismo legítimo nunca é fácil para ninguém. Quem luta por uma causa sempre acaba tendo que lidar com a pecha de pentelho em alguns — ou diversos — círculos sociais. Do outro lado, quem escuta de um ativista que está fazendo tudo errado a respeito de determinada causa também pode se sentir frustrado, irritado e, eventualmente, se tornar agressivo. Os ativistas são agressivos em alguns casos também. Como o próprio nome já diz, uma luta é sempre uma luta. Mas haja mindfullness para aguentar quem não luta por absolutamente nada além da própria reputação.

Se Felipe Neto também anda despontando como ativista com o objetivo oculto de construir uma reputação, isso seria uma pena. O fato é que, diferentemente do sommelier de ativismo, o youtuber está efetivamente investindo tempo, dinheiro e neurônios em favor de causas democráticas — tão ameaçadas nos últimos tempos.

A piadinha "não acredito que vou ter que concordar com Felipe Neto" virou hit nas redes sociais, mas já pensou que louco se, na verdade, o Felipe Neto é que passou a concordar com você? Mais louco ainda vai ser quando o pessoal se der conta de que o influenciador eventualmente decidiu abraçar causas progressistas graças à mobilização de diversos ativistas digitais. Ou você preferia que ele estivesse fazendo piadinha transfóbica como nos velhos tempos? 

Quem simpatiza com conceitos como liberdade e democracia deveria economizar tretas e energias nesse momento, porque tudo indica que vamos precisar de disposição para defender direitos básicos durante a onda de retrocesso que atravessamos. Gastar energias descascando gente que está do mesmo lado da trincheira não tem outro nome mesmo: é encheção de saco. Uma atitude quase tão rasteira quanto à do senhor que prioriza recolher materiais com temática LGBT em uma cidade que está carente de absolutamente tudo, menos de LGBTfobia.

Errata: Diferentemente do que foi publicado, o youtuber Felipe Neto tem 34 milhões de seguidores. O texto foi alterado às 15h06 do dia 12/09.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.