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‘Homem meio bicha’: o sonho de muita mulher moderna

Luiza Sahd

22/02/2019 05h00


Desde a época da faculdade, vivi rodeada por gays. Estudei Letras, que é um curso tradicionalmente frequentado por mulheres (ou por homens que não se importam de escolher uma carreira lida como feminina). Em todos esses anos, notei que homens que não se importam de ter atitudes "femininas" costumam ser os mais agradáveis de se ter por perto, principalmente porque eles não se avexam ao serem carinhosos, sentimentais e atentos às necessidades das pessoas. Isso, obviamente, não exclui a possibilidade de que homens héteros possam ser igualmente agradáveis. E digo isso com "homens meio bichas" em mente.

Quando vim morar em Madrid, tudo o que aprendi com os amigos gays brasileiros sobre como identificar quando um homem é homossexual — inclusive para não paquerar a pessoa errada — ruiu. Em pajubá (dialeto LGBTQ), "gaydar" é uma espécie de radar interno que desenvolvemos para sacar se uma pessoa é gay enquanto interagimos com ela. E eu tinha um excelente gaydar até começar a conviver com os rapazes europeus.

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Na Europa, a primeira dificuldade para rastrear gays é a questão das vestimentas e dos cortes de cabelos. Sou totalmente contra estigmatizar grupos de acordo com a aparência mas, ao que tudo indica, os homens brasileiros, gays ou héteros, têm seus códigos de conduta bem mais estritos nesse sentido do estilo. Os europeus se vestem, cortam seus cabelos e usam cachecol com total liberdade.

A dificuldade em diferenciar homens gays e héteros na Europa vai se intensificando, também, porque a região parece ter sido atingida por um tsunami civilizatório que fez com que os caras não se importassem caso parecessem afeminados — desde o rito de paquera até o tratamento similar que dedicam a homens e mulheres, sem abusar do corpo ou da privacidade de ninguém. Novamente, é evidente que há exceções, mas, do lado de cá, a maioria esmagadora dos rapazes parecem meio bichas.

Foi com um pouco de estranhamento que passei a achar esses rapazes que usam gola rolê muito mais atraentes do que os machões invocados que povoam o nosso imaginário erótico. Convivendo com héteros que parecem gays, entendi minhas reais necessidades afetivas. Não preciso de um homem ao meu lado para fazer cover do Sylvester Stallone: sou muito boa em me defender, ganhar meu próprio dinheiro e matar baratas sozinha, entre outras características de independência. O Rambo de casa sempre fui eu. Por isso mesmo, o que espero de um romance é afeto, companheirismo, consideração e tudo aquilo o que pega mal para um hétero com medo de parecer meio bicha.

A própria atitude dos caras que são asseados, carinhosos e sensíveis me parece um gesto de coragem tão forte perante o manual da masculinidade que isso me parece baita sinal de hombridade e autenticidade. No fim das contas, ter medo de que o homem sensível seja bicha de verdade ainda me parece menos aterrorizante do que o temor de que ele tenha explosões de violência, por exemplo. Ou que pegue geral para mostrar que é viril, que não limpe nada em casa, que não cuide da saúde dele ou não seja atencioso com as pessoas que deveria. As possibilidades de desgraçamento mental são infinitas quando pensamos em machões.

Nada disso é uma insinuação de que homens que parecem meio bichas são sempre moralmente superiores. Isso é uma insinuação de que, provavelmente, caras assim podem ter valores mais parecidos com os das mulheres modernas — o que é bem lógico em um mundo como o nosso. Nos ocupamos de praticamente tudo o que eles se ocupavam antes, quando eram provedores das parceiras.
Se você é uma mulher moderna que não vê necessidade de ter um homem ao seu lado para dar continuidade à função de pai,  talvez seja hora de sacar o grande apelo sexual dos rapazes que gostam de mulheres, mas parecem meio bichas. Se eles não te atraem, não tem problema. Pode passar pra cá.

Homens meio bichas: estou solteira. E várias amigas espertas que admiram vocês, também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.