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Linchamento virtual de ‘Tio do slime’ prova nossa preguiça de pensar

Luiza Sahd

08/02/2019 04h00

Nilson Izaías, também conhecido como Papinho, é um aposentado de 72 anos que virou estrela da internet em questão de quatro dias, ganhando três milhões de seguidores no YouTube após publicar este vídeo cheio de carisma em que finalmente acerta uma receita de slime (massinha de modelar que as crianças podem fazer em casa):

Também no intervalo de quatro dias, Papinho, que ficou famoso como o 'tio do slime' nas redes sociais, conheceu o melhor e o pior da internet. Depois de ter feito um monte de amizades por conta do sucesso de seus vídeos, o aposentado — que vive em um sítio de Juquiá (SP)  e costumava filmar as frutas ou os passarinhos que visitavam seu quintal — se viu obrigado a prestar esclarecimentos sobre acusações de pedofilia que partiram de perfis falsos do Twitter.

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Mesmo sem nenhuma prova concreta ou denúncia formalizada contra Nilson, o assunto explodiu nos portais de notícia. O estrago contra sua reputação está feito e, para piorar, os acusadores não têm um rosto nem identidade. Essa é a pior característica das fake news: os verdadeiros criminosos nunca são acusados, punidos ou isolados do nosso convívio.

Existe uma diferença fundamental entre as pessoas que mordem iscas de fake news e as que não compram qualquer conversa mole. O primeiro grupo tem preguiça de verificar se a fonte das informações é segura e acredita no quer ou gosta de acreditar, não se importando muito com as consequências disso. Para pessoas com este perfil, a veracidade dos fatos importa menos do que o tanto que eles condizem com suas visões de mundo. Foi assim com a história da "mamadeira de piroca", com o célebre "kit gay" e com as falsas declarações sobre pedofilia atribuídas ao ex-deputado federal Jean Wyllys. Continuará sendo assim enquanto tanta gente continuar espalhando notícias sem perguntar de onde elas vêm.

A missão para não cair em notícias falsas é bem simples, na verdade. Ao se deparar com uma história importante, basta se perguntar: "de onde saiu essa informação? Temos provas sobre ela?"; aparentemente, a maioria das pessoas se recusa a fazer isso antes de sair cometendo linchamentos virtuais e gritando por justiça. Esta matéria aqui, por exemplo, explica muito bem os motivos porque é mais seguro confiar na imprensa do que no maluco do perfil falso do Twitter chamando o Sr. Nilson de pedófilo. Resumindo muito, os jornalistas são pagos apenas para checar os fatos mil vezes antes que eles venham a público. Se um jornalista publica algo errado, ele perde o emprego — e ninguém quer perder o emprego nessa crise dos diabos.

Não são só as notícias que precisam ser confiáveis; os leitores também precisam ser. A única forma de ser um leitor honesto é checar de onde vêm os relatos antes de passá-los adiante. Com isso, o leitor também ganha em termos de reputação, sendo um emissor confiável porque ele sabe examinar as informações que chegam e não disseminam boatos sem provas que podem arruinar vidas.

Enquanto os consumidores de notícia não fizerem sua parte como leitores inteligentes, veremos muitos Nilson sendo acusados por aí. A estratégia baixa de dizer que a imprensa é uma fábrica de fake news, sinceramente, só interessa a quem tem medo de fatos documentados, apurados. Notícias falsas ganham força, mesmo, quando os leitores não sabem mais em quem confiar — e escolhe bem o perfil recente do Twitter ou a corrente do Whatsapp como emissor seguro.

Não adianta reclamar da imprensa e nem sentir compaixão pelo 'tio do slime' se a sua preguiça for maior do que a sua vontade de viver em uma sociedade justa e harmoniosa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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