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Por que ser chamado de ‘tchutchuca’ tirou Paulo Guedes do sério?

Luiza Sahd

04/04/2019 16h39

Apelido bom é aquele que irrita (Pedro Ladeira/Folhapress)

Na última quinta-feira (4), o ministro da Economia, Paulo Guedes, esteve na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e ouviu que ele é "um tigrão para tirar direitos dos trabalhadores, mas uma tchutchuca na hora de agradar os banqueiros". O autor do insulto foi o deputado Zeca Dirceu (PT-PR).

O desenrolar da desavença não foi mais maduro do que a piada do deputado petista. Guedes retrucou o deboche dizendo que tchutchuca eram a mãe e a avó de Zeca Dirceu. O embate virou caso de polícia e, evidentemente, o apelido já grudou em Guedes. Procure "Paulo Tchutchuca" ou "Tchutchuca Guedes" nas redes sociais e tire suas próprias conclusões.

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Aprendemos bem cedo, ainda na escola, que basta ficar bem nervoso com um apelido para que ele vire seu sobrenome extraoficial. Por falar em aprender cedo, o interessante de envelhecer é que os tormentos do mundo acabam nos surpreendendo cada vez menos. Apesar disso, nunca vou cansar de ficar fascinada com a reação dos homens ao serem comparados com mulheres. É cômico e trágico, tudo ao mesmo tempo.

Nos primeiros meses de trabalho como ministro da Economia, Guedes já foi chamado de incompetente, de desonesto e ouviu até que pode estar acobertando fraudes, como vemos nesta fala aqui da deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ). Não sei você, mas se eu fosse inocente e escutasse uma acusação dessa importância, eu endoidaria.

Em nenhuma ocasião de escárnio público o ministro se exaltou tanto quanto ao ser comparado a uma tchutchuca — e a lógica é simples: em um país misógino como o Brasil, você pode parecer corrupto, incapaz ou mal-intencionado, mas parecer uma mulher vulgar? Aí já é demais.

Os noticiários políticos vêm criticando Guedes pelo descontrole e a inabilidade emocional na Câmara, já que provocações no nível da baixaria são o pão de cada dia por ali. Particularmente, me parece que deveríamos prestar mais atenção ao cerne do quiprocó: tanto a referência de Zeca Dirceu quanto a reação de Paulo Guedes escancaram uma questão urgente que importa pouco ou quase nada no cenário político. O ódio contra mulheres — em especial as que desfrutam da própria sexualidade — é naturalizado a ponto de parecer engraçado e aceitável usar a pecha de biscate como munição para atingir alguém que, bem, deu dezenas de outras brechas para ser insultado com propriedade (e sem precisar evocar a reputação de nenhuma mulher para isso).

Enquanto a maioria dos homens continuar vivendo atormentado pelo pesadelo da associação a figuras femininas, vai sobrar para a gente. E "a gente" não inclui só as mulheres, não. Atravessamos a pior crise política das últimas duas décadas e o que abala realmente os nervos dos nossos representantes é a comparação com o que mais desprezam na sociedade: mulheres sexualmente emancipadas.

É bem risível mesmo. Pena que estamos rindo pelos motivos errados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.