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‘Boneca Russa’ pode te ensinar a fazer as pazes com o passado

Luiza Sahd

15/02/2019 04h00

No último final de semana, talvez meio presa a tretas do passado, decidi não ir a nenhuma festa e fiz o que a maioria dos jovelhos (jovens que já são meio velhos) fariam em meu lugar: optei por me soterrar de mantinhas e escolher alguma coisa na Netflix para assistir até os globos oculares pedirem arrego.

Tive a grata intuição de clicar em "Boneca Russa", série de Amy Poehler, Natasha Lyonne e Leslye Headland. Não tinha como dar errado — e não deu mesmo. Veja o trailer e, depois dele, serei obrigada a dar alguns spoilers para chegar onde interessa:

A história conta a saga de Nadia (Natasha Lyonne), que sai da própria festa de 36º aniversário e morre atropelada. Ela não acorda no céu ou no inferno, mas na mesmíssima festa, se olhando no espelho de um banheiro, de onde sai inúmeras vezes — e morre em todas elas — tentando descobrir se está vivendo uma viagem errada de droga ou simplesmente enlouquecendo.

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Nos primeiros episódios, "Boneca Russa" já impressiona pela construção dos personagens. A protagonista é uma mulher durona sem ser clichê. Ela tem inúmeras fragilidades, sendo a mais marcante o fato de que sua mãe sofria de transtornos psicológicos e não chegou a completar 36 anos de vida como ela fazia agora. É aí que a coisa se complica.

Apesar de morar em Nova Iorque e ser uma desenvolvedora de videogames bem-sucedida que não está lá muito preocupada com romances (outro grande clichê que a série dribla maravilhosamente), Nadia cria jogos com níveis absurdos de dificuldade, feitos para jogadores solitários. Ao longo dos episódios, dá para perceber que ela faz o mesmo com a própria vida: se isola emocionalmente e é resistente ao afeto ou a qualquer oferta de ajuda que implique intimidade.

O ponto de virada acontece quando, durante uma de suas mortes, Nadia conversa com um cara que também morre e acorda sucessivamente de frente para um espelho de banheiro. Alan Zaveri (interpretado por Charlie Barnett), assim como a protagonista, sofre acidentes diversos e volta ao dia em que vai pedir a namorada em casamento mas toma um pé na bunda. O desfecho se repete até a "reencarnação" em que ele resolve lidar melhor com o fora da namorada. Quando Alan abraça o problema e reage ao rompimento com uma conversa generosa sobre a relação, começa a se libertar da saga de morrer e reviver esse encontro.

Nadia e Alan têm muito mais em comum do que o estranho fenômeno mórbido: eles estão, de modo alegórico, presos a dias difíceis. Quem nunca reviveu um dia horrendo por semanas, meses ou anos tentando imaginar que outros desfechos a história de nossas vidas poderiam ter se a gente tivesse podido impedir uma situação dolorosa?

"Boneca Russa" faz pensar sobre como morremos um pouco por dentro sempre que criamos labirintos mentais que conduzem a situações de sofrimentos passados. A série é gostosa de ver, inclusive, pela oportunidade de redenção que os personagens têm nos dias mais dolorosos que estão revivendo sem parar.

Ao contrário de Nadia e Alan, a gente não pode mesmo "dar reset" na vida para acordar a tempo de evitar alguma tragédia pessoal aterrorizante. Por outro lado, todo mundo é meio Nadia ou Alan quando fica remoendo uma dor ao invés de seguir o caminho sem olhar (tanto) para trás.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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