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Para homens e mulheres: 8 considerações importantes sobre vaginas

Luiza Sahd

30/08/2017 08h00

Ainda bem que vagina não fala. Se pudesse falar, xingaria um monte (Foto: iStock)

 

Se todas as matérias sobre vaginas fossem sinceras, elas não teriam o tom ameno e cheio de pudor que costumam ter. Nascer com uma vagina é uma espécie de condenação em diversos momentos, mas a gente fica bem na nossa, caladinhas, para não passar vergonha.

Como orgulhosa portadora de uma, eu preferiria ter sabido de certas coisas mais cedo na vida, tipo o fato de que, a cada mês, passaria uns dois dias com apenas 15% do meu discernimento normal, por motivo de cólicas lancinantes. Ovários, né. Tem a piadinha de que Deus é misógino e tem quem diga que esse é o preço que se paga pelo dom de gerar a vida. Uma pena que eu não esteja segura de que um dia vou usar esse dom. Enquanto isso, segue o baile e a tortura física.

Na escola, ensinam lá que vagina é o lugar de onde saem os bebês, que expulsa sangue do útero, é onde entra o pênis… Aprendemos basicamente para que serve o sistema reprodutor. Como se fosse só isso mesmo, uma funcionalidade.

Das duas, uma: ou o pessoal que elabora esse conteúdo não tem vagina ou tá sendo desonesto. Se seria papel da escola, dos ginecologistas, das mulheres próximas ou da mídia eu não sei, mas deveria haver um estágio na vida em que a gente fica sabendo a realidade sobre ter vulva. E ele não chega nunca. Então, vou abrir minha boca mole e contar algumas coisas que podem te apavorar ou tranquilizar, a depender da ótica. O único fato é que não adianta espernear, porque as coisas são como são.

1. Depilação deveria ser proibido, mas a gente inclusive gosta
Meter gilete, cera quente ou laser na vagina é uma demanda patriarcal? Sim, porque nenhum homem precisa necessariamente arrancar pelos do corpo para obter a carteirinha de sexualmente desejável. Alguns até fazem. Agora, vem aqui: quantos não fazem e quantas mulheres deixam de fazer?

Apesar de ter isso em mente, a gente se acostuma a esse rito medieval a ponto de ir negando as aparências, disfarçando as evidências e agir como se, ao depilar, não estivéssemos expondo nosso corpo a bactérias oportunistas e como se não fosse pingar mijo na perna a cada vez que vamos ao banheiro, independentemente do montante de papel utilizado para se limpar depois do xixi.

Homem, sabe a sua mina? Quando ela se depila, por falta de pelo para reter as gotas, o xixi dá uma escorrida pela perna na hora de levantar do vaso. Durma com essa informação inútil. Valorize o ato de coragem que é arrancar pelos. Ou desvalorize, e vamos todos ser peludos.

2. Umidade é uma faca de dois gumes
A vagina é conhecida como uma região pantanosa. É verdade e é mentira. A gente tem um ajuste tão fino de umidade saudável ali que dá vontade de chorar. Vaginas não suportam ambientes excessivamente abafados e ficam mal quando passam muito tempo oprimidas por biquínis molhados, absorventes encharcados (ainda que trocados com a frequência ideal) e com calcinhas, de maneira geral. Odeio todo mundo que não me recomendou, ainda na infância, dormir sempre sem calcinha para ventilar a região. Porque a gente não nasce de calcinha. Então, em verdade, vos digo: mulheres, durmam sem calcinha. Sua pepeca agradece.

3. Falta de umidade não necessariamente é falta de desejo
Existe um tanto de glândulas que lubrificam a vulva. Um dos motivos é facilitar a vida sexual (se não, como sabiamente disseram as Ginecologistas Sinceras nesta entrevista, os pintos cantariam pneu em vulvas secas). Acontece que essa lubrificação nem sempre funciona, por motivos variados: falta de estímulo, obstrução de glândulas, idade, falta de sorte. Andar por aí com lubrificante à mão fica parecendo coisa de gente pervertida ou que só pensa naquilo. Fica chato. Então, um montão de mulheres literalmente esfolam a vagina para evitar o constrangimento de tirar um lubrificante da bolsa e ainda ouvir o parceiro ter *ideias* sobre o que mais se pode fazer com o produto.

Particularmente, eu adoraria fundar uma seita para pregar sobre os benefícios dos lubrificantes.

4. Vibradores são amigos, não inimigos
Se ter lubrificante já pega mal, imagina vibrador. Fico pensando em quantas mulheres nunca experimentaram os milagres anatômicos que a tecnologia já nos oferece. Eu mesma, que sou brigada com a moral e os bons costumes, até pouco tempo nunca tinha provado um aparato fálico milagroso que estimula três pontos da vulva simultaneamente. Resultado: me chocou que as pessoas ainda façam sexo hoje em dia sem ser por amor. Exageros à parte, mulheres precisam acumular na vagina cerca de 5 vezes o fluxo sanguíneo que um homem precisa acumular no pênis para chegar ao orgasmo. Isso significa uma escolha: ou você vai demandar muito mais tempo do que um cara em condições normais para gozar ou você lança mão de acessórios para se descobrir sozinha ou acompanhada, porque eles existem e não vão arrancar um braço de ninguém ali. Ah, claro. Sempre existe a opção de ficar chupando o dedo ou fingir que tem orgasmo. Chato.

Mulheres: abram mais seus corações (e pernas) para os vibradores e menos para pintos egoístas.

5. Clitóris são tipo mini pênis, com o dobro da potência
Gosto de pensar nos clitóris como penso em nanotecnologia. Os processadores de computadores antigos eram imensos e tinham menos potência do que os pequenos de hoje em dia. Nosso clitóris é mais ou menos isso aí: ele tem a anatomia semelhante à de um pênis, o dobro de terminações nervosas, mas também tem ereção; ele não precisa de tanto tempo refratário para ter mais orgasmos depois de ter um, mas os orgasmos múltiplos ainda são O Mistério Do Planeta.

Temos um órgão que serve única e exclusivamente para nos proporcionar prazer. Mesmo assim, a função do bicho só foi descoberta recentemente e o pessoal ainda usa mal, incluindo as próprias portadoras. Tem que ver isso aí.

6. O conceito de higiene íntima tá todo errado
Tem absorvente com cheirinho, sabonete com cheirinho, lubrificante com cheirinho, tudo com cheirinho, como se o cheiro de uma vagina fosse um esgoto a céu aberto e pudesse traumatizar um cara durante o ato sexual. Um exemplo bem didático sobre o cheiro da vagina é que temos o pH local semelhante ao dos vinhos. Excelentes vinhos, eu diria, pois sou abusada.

Esse monte de coisa com cheirinho faz mal para a vagina. Sabe o que FAZ BEM para a vagina? Não lavar com muito sabão, porque é um órgão autolimpante; não meter nem um dedinho ali que não esteja muito bem lavado; não meter de jeito nenhum um dedinho ali que tenha acabado de sair de um ânus. Quem pede para o parceiro lavar a mão antes de transar e exige que ele preste atenção no itinerário dos dedinhos? Pois é.

7. Sexo de quatro é quase sempre torturante
Pode ser que você seja mulher e adore, eu vou te respeitar. Tem gente que sente prazer simplesmente em oferecer prazer, tem gente que não tem tanta sensibilidade à dor e tem ainda quem ache que a dor faz parte do pacote. Sendo objetiva do ponto de vista anatômico: um pinto entrando e saindo de uma mulher de quatro passa a léguas do clitóris, cutuca o útero pra caramba e, enfim, não é exatamente uma Disneylândia para a mulherada não. Ninguém pediu, mas tô avisando.

8. Pílula diminui a libido
Pode me prender, pode me bater. Pergunta aí pra sua amiga que parou de tomar anticoncepcional o que aconteceu com o desejo sexual e a disposição física dela em linhas gerais. Não vou nem me alongar nesse item porque teria que escrever a conclusão aqui usando sangue menstrual de tanto rancor contra a indústria farmacêutica e médicos negligentes.

Outro dia, uma amiga comentou que tem dificuldade para sentir prazer nas transas mas evita fazer exigências ou explicar parte dessa complexidade para o parceiro. Motivo: "não quero parecer uma vagina mimada".

As vaginas nunca são mimadas, coitadas. Elas são umas incompreendidas. Deve ser de revolta que dão tanta encrenca ao longo da vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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