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Luiza Sahd

O que aprendi configurando meu Tinder para dar match com homens e mulheres

Luiza Sahd

22/08/2018 04h00

Como eu me sinto quando lembro que sou heterossexual. (Foto: Reprodução/ Marius Sperlich)

Viajar faz mal pro bolso e bem pra cabeça. Como pretendo viver 200 anos, fico sempre com o kit "conta arrombada + mente sã". Numa dessas, vim parar na França e acabei assistindo um programa de paquera na TV local. É assim que lembro por que escolhi não ter TV em casa — e relativizo a toda essa teoria sobre os benefícios de viajar mais. Ligando a TV em qualquer país, termino querendo desver tudo o que vi.

Hoje, vi um clássico: o homem todo mal ajambrado com pretendentes muito mais interessantes do que ele em qualquer quesito. Fiquei pensando com meus botões que, bom, elas poderiam estar querendo um "sugar daddy". O curioso nisso é que você nunca vê um cara formosão buscando sugar moms que sejam puramente feias e ricas. Provavelmente, isso acontece porque um cara que sai com mulher rica que não seja pelo menos gostosa (natural ou artificialmente) acaba com a pecha de… afeminado. Sabe como é: homem tem que transar sentindo prazer. Já as mulheres, no imaginário coletivo, podem sempre abrir mão desse luxo.

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Como diria o poeta, se orientação sexual fosse opção, ninguém optaria por gostar de homens. Com esse mantra em mente, tratei de abrir meu coração para me apaixonar por qualquer ser humano decente — porque sonho mesmo com o dia em que atingiremos aquela realidade "Totalmente terceiro sexo/ totalmente terceiro mundo/ terceiro milênio/ carne nua nua nua nua nua nua nua" que o Caetano Veloso descreveu há 30 anos (e quase ninguém prestigiou como deveria).

"Ah, mas assim a humanidade entraria em extinção". Com licença, não me relaciono visando reprodução no momento, mas obrigada pela preocupação! Fora isso, a gente já sabe direitinho o que fazer caso queira procriar e confio de verdade que não vamos esquecer essa fórmula tão simples.

Voltando a assuntos mais ordinários do que o mistério da vida, configurei meu Tinder, tempos atrás, para dar match com homens e mulheres. Aconteceu o óbvio: a qualidade da conversa fiada com as meninas é simplesmente sublime em comparação com 90% dos papos que bato com caras.

Pra começo de conversa, mulheres não costumam ter fobia de afeto. A alegria que dá não precisar me esquivar de fenômenos como sexting precoce, foto não-solicitada de pinto ou satisfações sobre não querer nada a sério (antes mesmo de conhecer o desconhecido) é indescritível. E não ser tratada como boneca inflável já que, de fato, não sou de plástico, então? Vixe. Mulher é tudo de bom. Hoje não é o Dia da Mulher mas, no Tinder, estamos sempre de parabéns.

Outra coisa bonita de flertar com mulher, fora as noções de bom-senso — que claramente são mais a nossa área — é o nível intelectual. Tô pra descobrir o que os caras fazem nas horas vagas que não sabem (ou fingem não saber) trocar uma ideia firmeza sobre cultura, projetos de vida, sonhos ou sei lá… o último hit do Netflix. Se eu quisesse ficar passando relatório sobre meu trabalho, a situação política do país ou planos para o final de semana eu comentava com a minha avó, não com desconhecidos no Tinder.

Em um tópico mais polêmico do que mamilos, posso garantir que a experiência de encontros com mulheres também foi sempre agradabilíssima a não ser por um detalhe. Minha orientação sexual é o que é.

Meu cérebro diz: "homens o que tenho a ver" 

Homens bem apessoados dizem: "Oi"

Meu coração diz:

Não acho que eu esteja sozinha nesse barco. Aparentemente, nem reza braba vai fazer com que o nível mental e afetivo da rapazeada melhore a curto prazo, mas mesmo a curto prazo sabe o que a gente pode fazer? Se olhar no espelho com a mesma generosidade que eles se olham. Ta aí uma bonita lição dos homens para as mulheres.

Quando a gente pensa num cara que reúna os adjetivos "atraente", "inteligente","responsável" e "bom coração", só me vem à mente o Batman ou o Rodrigo Hilbert — com o adendo de que não pareceu lá muito inteligente por parte do Rodrigo matar uma ovelha na TV brasileira, mas enfim. Se pensarmos em mulheres que reúnam os mesmos quatro adjetivos acima, conseguimos uma listinha bem maior. Muitas amigas nossas gabaritariam, inclusive. O motivo é simples: mulher tem o péssimo costume de se esforçar muito e esperar menos em troca.

O que aprendi usando o Tinder para conhecer mulheres foi, essencialmente, enxergar em mim todas as qualidades que vejo nas meninas — mas nem sempre estão nítidas no espelho: a boa vontade para ser agradável e gentil, o interesse legítimo pelo ser humano que está do outro lado, o apreço por corpos destoantes do padrão Barbie, a liberdade descompromissada que há em não discutir compromisso antes da hora e até o que deveria ser básico na conquista, como o valor do asseio pessoal (caramba, a gente é muito cheirosa).

Caso emplaquem mesmo aquela sandice de terapia para trocar orientação sexual, serei a primeira da fila, pois tenho interesse em trocar a minha. Enquanto não acontece, resta a alternativa de continuar sendo meu próprio Batman.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.