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6 tipos de mulheres que não cabem nesse mundo

Luiza Sahd

14/12/2017 08h00

 

Talvez recortando um pouquinho, caiba mais, né?

Mulheres que não cabem nas roupas
Renata tem 27 anos e usa manequim entre 40 e 42. Se ela disser que é magra, talvez as pessoas bem magras achem graça. Se falar que é gorda, pode ser que as bem gordas se ofendam. Dá para dizer que Renata tem um corpo normal e saudável, mas as redes de fast fashion indicam que não: quando ela encontra a peça que gostou no tamanho G, nem sempre o G serve. Aparentemente, 42 é o novo 46 e Renata se pergunta onde comprar, já que as lojas de plus size também não contemplam o biotipo dela. A cada vez que tenta se produzir, ela sente que não se cuidou o suficiente para merecer andar bonita e vai precisar fazer um esforcinho até a próxima tentativa.

Mulheres que não cabem no metrô
Vânia é recepcionista em uma clínica estética do Rio de Janeiro há quase dez anos. Todos os dias, às 7h e às 18h, ela pega a Linha 1 do metrô e tenta entrar no vagão rosa, onde supostamente só mulheres podem embarcar. Às vezes, Vânia precisa pegar vagões aleatórios, mas prefere os exclusivos para mulheres porque, no verão de 2009, ela foi trabalhar de vestido e um passageiro enfiou a mão entre as nádegas dela no vagão misto. O olhar dele era tão agressivo e confiante durante o gesto que ela não conseguiu sentir ou fazer nada durante o ataque, mas, até hoje, Vânia sente pânico e aversão ao próprio corpo quando entra no metrô.

Mulheres que não cabem em lugar nenhum porque menstruam
Em julho deste ano, uma nepalesa de 19 anos morreu picada por uma serpente. O nome dela não foi divulgado, mas o motivo, sim: em algumas zonas do Nepal, meninas são isoladas da própria casa quando menstruam; Na Índia, muitas não podem ir à escola porque não têm acesso a absorventes descartáveis e nem condições sanitárias adequadas para se limparem; No Japão, permanece o mito de que mulheres não podem trabalhar como sushi chefs porque o ciclo menstrual faz com que a temperatura das mãos femininas varie, mudando também o sabor da comida.

Mulheres que não cabem em eventos culturais
Se você já foi a uma dessas feiras literárias de qualquer cidade, em qualquer país, deve ter notado o estranho fenômeno da proporção entre mulheres e homens neste tipo de evento. As mulheres são maioria nas platéias das palestras e, curiosamente, há poucas escritoras palestrando. Os bancos das universidades também são ocupados, em sua maioria, por mulheres; de todas as maneiras, as pessoas contratadas para dar aulas geralmente são homens. Por alguma razão misteriosa, elas não têm cabido nem nos espaços que mais gostariam de ocupar.

Mulheres que não cabem em estereótipos
Em agosto deste ano, Paola Carosella, que apresenta o MasterChef Brasil, foi questionada pelo colega Erick Jacquin se ela estava mais para uma grande cozinheira ou "uma puta gostosa". Com muita calma, Paola teve a grandeza de espírito de responder que se considerava as duas coisas. Parece doido ter que explicar que uma característica (sensualidade) não anula a outra (competência), e mais doido ainda que a gente não veja homens recebendo esse tipo de abordagem.

Mulheres que não cabem em bolsos de homens
Lara sempre fez sucesso com os homens de uma maneira peculiar. Ela tem uma carreira estável como advogada e, aos 30 anos, é solteira. Sempre saiu com os caras que quisesse, mas em algum ponto do caminho eles deixam claro que não estão dispostos a ter um relacionamento sério com ela. Muitos seguem sendo amigos e eventualmente se declaram meses depois que o rolo já terminou. Às vezes, ela lamenta por não caber nas expectativas deles a tempo, ainda que caiba nas próprias expectativas.

Mulheres que não cabem no próprio movimento feminista
No início do mês, a ativista Gloria Steinem contou que movimento #MeToo foi criado há anos por Tarana Burke, feminista e negra. Não é por acaso que a discussão sobre assédio sexual só tenha ganhado tanta atenção midiática quando a lebre foi levantada por atrizes de Hollywood e não pela sua colega da firma que sofre assédio há anos. Atrizes brancas, magras e poderosas são das poucas mulheres que cabem nesse mundo. Elas são o que se espera da gente.

E quantas mulheres acabam torrando a própria energia vital tentando ser como elas?

O dicionário Merriam-Webster elegeu 'feminismo' como a palavra do ano. De acordo com o editor do dicionário, Peter Sokolowski, o termo foi um dos mais pesquisados no site durante 2017, com aumento de 70% nas buscas… mas as mulheres ainda estão ocupadas demais buscando espaços no mundo. Na hora de lutar, já chegam combalidas.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.