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Comportamento: quando foi que gostar de alguém virou ofensa?

Luiza Sahd

22/05/2018 04h01

 

No último dezembro, um leitor perguntou o que eu tinha aprendido de mais importante em 2017 e fiquei confusa de verdade, não soube responder. Com quase seis meses de atraso, vou voltar lá no tópico, esbaforida, perguntando se ainda dá tempo de dizer que minha lição foi: "nunca duvide da loucura coletiva que a falta de afeto pode provocar".

Como pretendo provar isso? O pessoal gosta de dados, então comecemos com um giro de dados completamente aleatórios que só têm um ponto em comum: os millennials estão correndo de afeto como a gente corre de telefonema de cobrança do banco.

Nos EUA, a onda é inventar termos babacas como Orbiting, Ghosting, Benching e Pulling Away para explicar quando alguém não te quer "a sério". (Eu diria "nem se dê o trabalho de diferenciá-los, porque são todos sinônimos de medo de compromisso, no fim das contas". Mas se quiser entender, também pode, aqui);

Na Espanha, 25% das casas já são ocupadas por gente que vive só. Metade dos casamentos realizados nos últimos 15 anos já acabaram e é o país da União Europeia onde a parentalidade é mais tardia. Os dados são da pesquisadora Ximena Berdejo.

Foi na Espanha, também, que assimilei uma depressão-relâmpago como sintoma da falta de afeto na minha rotina — a 8500 km do pessoal com quem tenho intimidade. Só entendi essa parte da depressão quando minha roomie, estudante de artes, contou sobre a pesquisa de uma colega dela: "tenho uma amiga que estuda o afeto. Já reparou na origem da palavra? Afeto é aquilo que afeta as pessoas. Deve ser por isso que tanta gente evita".

Bum. Meu mundo caiu. Desde então, venho estudando o afeto obsessivamente, inclusive fazendo experiências com cobaias vivas (as pessoas que me cercam, incluindo paqueras). Na maioria esmagadora dos casos, o pessoal se choca e desconfia da minha nova conduta, mais carinhosa. No caso dos flertes, boa parte até insinua que estou completamente doida quando respondo, no Bumble, que instalei o aplicativo em busca de afeto. Basicamente, o pessoal evapora em seguida. E eu agradeço ao universo tanto pelos que se mandam quanto pelos que ficam.

Quem não quer carinho? Mas quem gosta de admitir?
Pessoalmente, suponho que quem quer gozar se masturba. Quem quer gozar com alguém junto quer algo mais, mas cala-te boca. Em geral, os caras ficam até violentos quando faço esse tipo de insinuação, mesmo que seja de modo sutil. Ai de quem disser que um homem hétero precisa receber ou dar afeto para ser mais feliz.

Nesse cenário de gente com coração peludo por todos os lados, é evidente que também vejo mulheres evitando atitudes carinhosas. A diferença é que, em geral, elas não se ofendem quando toco no assunto. De uma forma ou de outra, o afeto virou um tabu: as pessoas da minha geração parecem ter mais medo de parecerem melosas do que de parecerem desprezíveis. Isso é uma constante nas relações de flerte, mas não só.

Olhando de perto, você vai encontrar uma legião com pavor de parecer frágil (afetado pelo afeto) com seus colegas de trabalho, na família, na fila do pão. Um com medo do outro, de gostar, de se envolver, de parecer bobo, ingênuo, inadequado. Resultado: gente desconfiada também não é confiável. E, assim, vivemos numa constante fuga do afeto. A toda velocidade.

Nessa jornada para descobrir o tamanho da encrenca que é a falta de carinho no mundo, é impossível ignorar a questão do gênero. O afeto é lido pela sociedade como um ato mais feminino do que masculino. Em um mundo liderado por homens (que não podem parecer afetados nem sob mira de pistola), é natural haver tanta guerra, hostilidade e tão pouco "gosto de você". É culpa da masculinidade tóxica? Sim. Mas também sei que as mulheres têm sido coniventes, tanto quando criam seus homens quanto nas ocasiões em que sentem vergonha de serem "sensíveis" e acabam dançando conforme a música dos desafetos.

Meu gesto de maior rebeldia, ultimamente, tem sido ostentar carência e fragilidade sem medo do que vão pensar de mim. Fico triste quando alguma mulher diz que ser empoderada é sinônimo de não acreditar em romantismo, por exemplo. Ser empoderada ou empoderado deve ter mais a ver com se sentir confortável na própria pele, ainda que ela seja delicada. Somos todos muito frágeis, por mais que essa realidade seja dura de engolir.

O afeto pode parecer uma resposta simples para uma série de problemas que vêm incomodando muita gente, mas acredito que ele seja mais uma raiz de perguntas que precisamos nos fazer do que uma resposta pronta. De todas as maneiras, me parecem as perguntas mais urgentes do mundo — embora o John Lennon já tenha sugerido isso há quase 50 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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