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Luiza Sahd

Crises de pânico são um sintoma de lucidez, não de loucura

Luiza Sahd

15/08/2018 04h00

Ilustração: Mari Casalecchi. Conheça mais trabalhos da artista aqui.

"Amanhã será um grande dia: vou voar sem passar nervoso", decidi. Tomei um porre de chá de camomila, fui dormir ouvindo esta excelente meditação guiada, levantei feliz às 6h e, antes mesmo das 7h, eu já estava sofrendo uma tentativa de assalto na esquina de casa. Acontece que eu não esperava ser assaltada em Madrid, o rapaz que me abordou não esperava que eu gritasse "socooooooooorro" com o mesmo volume e intensidade da música "Galopeeeeeeeeeeeeira" e terminamos não nos entendendo: nos afastamos olhando para trás por uns 200 metros.

Todo esse preparo antes de sair de casa foi uma boa tentativa de administrar meu pânico de aviões, mas esqueço que, mesmo quando não quero guerra com ninguém, vivo em um entorno muito mais louco do que meu pobre cérebro — não importando por que parte do mundo eu ande.

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Poucas coisas na vida não são uma questão de tempo. Mais do que dinheiro, tempo é o que temos de mais valioso para gastar (e nosso único bem inalienável, a menos que alguém nos mate). Quem falou melhor sobre isso foi o professor Antônio Candido de Mello e Souza, que escreveu o fragmento abaixo e acumulou 98 anos entre nós, certamente bem investidos:

Desde pequena, tenho questões de ritmo. Caluniadores e minha avó dirão que sempre fui lenta e preguiçosa (daí o vexame nos esportes). Digo que, simplesmente, sempre fui mais lenta do que a média dos convivas — então me ensinaram logo a correr para viver melhor. Aos 14, por razões que desconheço, passei quase um semestre sentindo medo de dormir; aos 15, tive o primeiro ataque de pânico. De lá para cá, tudo o que faço é tentar não me desorganizar mentalmente quando um monte de coisa acontece fora do ritmo a que estou acostumada.

Em uma sociedade que reverencia sempre a produtividade e a eficiência, a gente que é mais da área de cochilo e cafuné pode ficar perdido com mais frequência do que gostaria. Até aí, problema nosso… mas tenho visto inclusive quem é muito bom de produtividade ser estimulado a isso até o limite da razão.

Não importa muito quão competente você seja em relação ao coleguinha ao lado: ambos serão provavelmente testados pelo mundo até o nível da insalubridade, porque alguém disse que temos que dar o nosso melhor em tudo — portanto, como nosso melhor não é ilimitado, é natural que fiquemos sem reservas para questões de saúde ou lazer, por exemplo.

O que você faz com o seu tempo é escolha sua, claro. Em geral, o mundo te aconselharia a fazer dinheiro, mas se você passou ou está passando por ataques de pânico, um bom primeiro passo é guardar um pouco do seu melhor no bolso e, quem sabe, desistir de algumas coisas menos urgentes do que se manter lúcido. O resto, pode ir se resolvendo pouco a pouco. Pasme.

Não gosto de dizer que tenho síndrome do pânico porque acho injusto: levo uma vida funcional em todos os sentidos desde 2012 e, quando o estresse chega a níveis alarmantes, meu corpo avisa. Quando entra em parafuso de pânico, na verdade, o corpo está sendo meu amigo e, basicamente, só quer sinalizar que espera a mesma amizade em troca. Quando ele avisa com falta de ar e suor nas mãos, colaboro com ele e assim vamos entrando em acordo.

Em 18 anos de tratamento mais ou menos disciplinado do pânico, noto que as pessoas que se veem diante de uma crise de ansiedade acham que estão enlouquecendo. Já tive alucinações táteis, visuais e auditivas por conta de remédio mal administrado e lamentei, aos 22 anos de idade, constatar que meu fim seria provavelmente perder a noção da realidade. Como sou paciente e não tenho registro no CRM a perder, ouso dizer, onze anos depois, que o problema de quem tem pânico é excesso de lucidez: só as pessoas muito loucas ou as que mentem para si mesmas acham que o ritmo de vida moderno é adequado à nossa natureza.

Por falar em natureza, fora nós, os únicos animais que padecem de transtornos de ansiedade são aqueles domesticados pelo homem. Isso deveria ser um grande indício de que a parte química do nosso cérebro esteja muito bem, obrigada. Eventualmente, a única coisa que estamos fazendo mal é dançar fora de compasso: seja em um ritmo lento quando a banda toca rápido pra caramba, seja em um ritmo rápido demais para lembrarmos de que não há — ou não deveria haver — tanta pressa de vida. Pressa de vida acaba sendo, também, uma pressa de morte, que é o nosso destino em comum.

Ainda sobre o pânico, este texto seria completamente irresponsável sem mencionar que só um profissional qualificado (psicólogo, psicanalista) pode avaliar de maneira adequada qual é a melhor abordagem para cada paciente, mas nem a palavra paciente me agrada. Na minha cabeça, o pânico não é uma doença a ser combatida: ele é sintoma de uma loucura coletiva externa que acabou te agredindo demais.

Se estiver passando por isso, permita-se fazer as pazes com o seu corpo e com o seu ritmo. Nenhum ritmo é errado; errada é a forma como vamos atropelando uns aos outros e, inevitavelmente, a nós mesmos.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.