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Luiza Sahd

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Proatividade em excesso é o mal do século

Luiza Sahd

16/10/2017 08h00

Dos vídeos que fazem a fatura da internet valer o preço que pagamos, eu destacaria aquele do cara tentando puxar a água da praia com rodo. Isso aí, para mim, é a definição da pessoa proativa.

Até minha avó de 86 anos já cansou desse papo de que hoje em dia é tudo muito rápido, super instantâneo, pá-pum, era da informação e não sei mais o que. O problema é que a gente sabe disso e não aprende nada. Nada, sério mesmo. Somos tudo uns doidos desvairados tomando atitudes (preventivas?) just in case.

 

Meu incidente mais emblemático com proatividade estúpida também envolve mar e aconteceu em uma balsa há uns meses atrás. Eu estava saindo de uma ilha paradisíaca na Itália, supostamente descansada e relaxada, com mais três amigos. A ideia era acampar e a quantidade de bagagem que estávamos levando não era brinquedo não.

Tudo muito bonito, todo mundo feliz, mas uma amiga lembrou, enquanto a balsa apitava para zarpar, que havia esquecido a mochila onde guardou o passaporte no cais. Pânico e desespero. Fui escolhida para vigiar uma tonelada de malas enquanto todos os outros corriam para convencer os rapazes do porto a segurarem a partida para recuperar a bendita bagagem que não entrou a bordo.

Como rainha da proatividade que sou, eu era a única portadora do combo celular carregado + internet na turma. Em pouco tempo, a balsa começou a andar e pensei "bom, não adianta mandar mensagem, mas deve estar tudo bem. Um dos três viria avisar se desse errado". Dois minutos; cinco; dez. "Ah, tem três andares a balsa, né. Já, já, eles chegam".

A travessia duraria mais ou menos uma hora, mas eu, já bem proativa, imaginei todos os cenários decorrentes do esquecimento dos três manés (também conhecidos como meus amigos) para fora do barco junto com a mala perdida. Começando pelas coisas primeiras, minha preocupação era descer quatro lances de escada da balsa com uns dez volumes de mochilas sozinha. Não ter onde dormir e não falar italiano na Sicília profunda seria café pequeno perto disso.

Aí bateu a proatividade. E quando a proatividade bate nessa minha geração, ela bate pesado. Larguei as malas sozinhas, rodei o navio, não achei ninguém. "Bom, eles ficaram para trás e agora é lutar com todas as ferramentas que tenho (palavras soltas aprendidas da novela 'Terra Nostra') para pedir uma forcinha e desembarcar a barraca e tudo mais até que os amigos me resgatem". Curiosamente, ao contrário de mim, a tripulação demonstrou zero proatividade nesse sentido. Só alguém bem trouxa poderia querer ajudar nisso aí.

Enquanto eu fazia uma espécie de Imagem & Ação apontando a bagagem e explicando que perdi "mis amici", fui sendo levada às mais altas instâncias da hierarquia na embarcação: uns marujos apontaram o capitão, o capitão tentou entubar o serviço em outros membros da equipe, ninguém decidia nada e me vi simplesmente na cabine do comandante explicando a situação ridícula em um mix aterrorizante de línguas latinas e inglês.

Depois de falar com o papa da balsa (que, por sinal, tirou sarro da minha cara relembrando o 7×1 contra a Alemanha quando tentei o approach simpático "sou brasileira"), fui tranquilizada de que uns rapazes me ajudariam a descer as malas no porto e eu não precisaria ficar morando na embarcação para sempre.

Sentei exausta em uma das malas, limpei o suor da testa e bebi um gole da água que já quase fervia na garrafinha plástica. Proativa como sou, lamentei o fato de que as próximas buchas a resolver sozinha seriam um pouco piores (achar onde me meter com tudo aquilo de malas antes de escurecer e esperar contato dos amigos sem celular).

A primeira resposta veio no instante seguinte sem que eu precisasse fazer nada: reconheci um dos meus amigos perdidos se aproximando das malas. Ufa! E sabe o que apareceu também, logo em seguida? Meus outros dois amigos.

Descobri, gargalhando de nervoso, que estavam todos tranquilos em um cantinho da balsa enquanto eu era PROATIVA e CUIDAVA DE TUDO para que NADA DESSE ERRADO com as malas. Quando os rapazes que supostamente me ajudariam a descer a bagagem chegaram, meus amigos alinharam que seria difícil explicar o mal entendido e que mais prático seria sinalizarem para os marujos, pelas minhas costas, que eu era louca. Não se pode dizer que eles estivessem mentindo em relação a isso, no fim das contas.

Há eras venho batendo na tecla da paciência. Se o gênio da lâmpada aparecesse aqui agora, eu pediria meus desejos nessa ordem:

1- paciência

2- paciência

3- paciência

… E que se lasque a proatividade. Isso aí só tem servido pra deixar a gente cada vez mais ansioso e para encher linguiça em currículum vitae malfeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.