Luiza Sahd

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Fugir ou bater: o que você tem feito com seus medos?

Luiza Sahd

13/03/2018 05h00

(Foto: iStock)

 

Meu pai tem uma ótima piadinha péssima sobre a possibilidade de ter a casa invadida por assaltantes: “mato ou morro.. Corro pro mato ou pro morro!”. Como todo animal acuado, a gente tem poucas opções diante do medo: correr ou atacar. Alguns, bem espertos, se fingem de mortos. De todas as formas, o medo é uma das emoções que mais nos animaliza.

Desde 2001, minha vida é uma contínua administração de medos. Foi naquele ano, aos 16 de idade, que fui diagnosticada com síndrome do pânico (como contei melhor neste post). Talvez seja esse o motivo de eu ter ficado íntima dos meus medos a ponto de me entender com eles — e de ter desenvolvido uma espécie de visão raio-X para enxergar os medos que as pessoas sentem e tentam disfarçar.

Ontem, tive bastante tempo para pensar sobre medos. Umas seis horas, para ser precisa. Odeio aviões porque não se pode fugir pro mato nem pro morro… e nem correr, muito menos atacar. Me fiz de morta de Salvador a Dakar, enquanto uma ventania no Atlântico chacoalhava minhas habilidades de gerenciar pavor. Lembrei da véspera, quando conheci o Ailton.

Horas antes de embarcar, eu estava em um churrasco. Um vizinho chegou já mostrando a que veio: criticando ideologia de gênero, dizendo que tudo agora é mimimi, que não se pode mais paquerar porque “qualquer coisa é assédio”. A sensação era a de que o Ailton veio ao mundo para discordar de mim.

Tentando não correr, morder ou me fazer de morta, embarquei em debates exaustivos sobre todos os assuntos supracitados. Concordando em discordar aqui e ali, não sei exatamente de que maneira acabamos chegando à mesma conclusão: as pessoas brigam tanto e sempre porque têm horror ao que não estão acostumadas. Os costumes estão mudando sem parar e a gente pode fazer sabe o que para impedir? Absolutamente nada.

Aumentando e abaixando o tom de voz durante horas, acredito de coração que eu e Ailton nos ajudamos bastante. Tenho certeza de que nos sentimos acuados e soubemos manejar as divergências com alguma elegância — e sem auxílio de focinheira. Naquele churrasco, vivenciamos o Fla-Flu ideológico em uma casca de noz pra contar que tá todo mundo se odiando por aí, basicamente, graças aos próprios medos.

Medo de perder o que conquistamos, medo de não se adequar ao novo, medo de pensar errado, medo de fazer no Brasil o que países “avançados” fazem e não funcionar (melhor ficar parado no tempo, então?), medo de apanhar na rua por causa de orientação sexual, medo de ser ridículo, de ser feio, de ser o que somos, bota aí o seu medo nessa lista.

O medo é um dos poucos sentimentos que não nos trazem vantagens para além da sobrevivência. Ele é contraproducente quando te paralisa ou te torna agressivo, mas sabe o que acontece quando a gente reconhece e assume esse fenômeno tão animalizante? A gente se humaniza.

Se todo mundo conseguisse falar “olha, isso aí é novo pra mim e tá me assustando”, era capaz de a gente não ter mais metade das tretas que vivemos todos os dias. Apostar na valentia de fachada, paradoxalmente, só tem servido para nos tornar praticantes de covardias. Ainda bem que o Ailton estava lá para me lembrar disso.

O que você tem feito com os seus medos?

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.

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