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Negritude, cancelamento, feminismo: ‘I May Destroy You’ salvou nosso 2020

Luiza Sahd

26/08/2020 04h00

 

Michaela Coel em "I May Destroy You"/ Foto: Divulgação

Até a data de publicação deste post, é seguro dizer que, do ponto de vista coletivo, o ano de 2020 poderia perfeitamente ser amassado e jogado no lixo. Não importa muito qual seja sua crença, orientação sexual, política ou superstição: a menos que aconteça algo muito inesperado e miraculoso de proporções globais, os últimos oito meses só serviram pra gente tomar surra de tragédia diariamente.

Por razões de distanciamento social, nem a oferta de pão e circo tem sido abundante em 2020. O entretenimento com o qual a gente se embriagava (em eventos ou em frente às telas) também vive uma seca sem precedentes, mas quis o universo — ou a entidade de sua preferência — que a estrela de Michaela Coel brilhasse neste mesmo fatídico ano. Graças a ela, temos a série "I May Destroy You", que sintetiza o espírito dos nossos tempos como poucas.

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Escrita, co-dirigida e protagonizada por Coel — que também é diretora executiva da obra, "I May Destroy You" já mostra a que veio no primeiro capítulo, quando apresenta uma trama vertiginosa protagonizada por um elenco majoritariamente negro, cheio de personagens sedutores, de classe média, com corpos diversos, com subjetividades, ocupando posições de liderança, viajando pelo mundo, enfim, fazendo tudo aquilo o que vemos ser representado quase exclusivamente por brancos em todos os seriados de sucesso que os streamings oferecem.

A série não é sobre representatividade. Ela apenas usa de representatividade para contar uma história forte e intrigante, algo que deveria ser trivial mas ainda é disruptivo em 2020.

Feminismo e lacração

O enredo de IMDY parte de um mistério envolvendo drogas e abuso sexual em um contexto bem corriqueiro: Arabella, uma mulher linda, inteligente e emancipada sai para uma noitada com amigos e tem um "apagão" de memória. Nos poucos flashbacks que chegam à sua mente no dia seguinte, ela vislumbra cenas de sexo que nem sabe se aconteceu. A partir daí, sua vida muda completamente.

Pensando excessivamente sobre abusos vividos por pessoas minorizadas, sejam eles de ordem sexual, piscológica, profissional ou microagressões, Arabella se torna ativista do feminismo — um pouco como toda mulher progressista viva neste momento. E é "lacrando" exaustivamente na internet pela causa que ela descobre que ninguém (nem ela, nem seus amigos, família ou ídolos) é perfeito.

A série aborda um leque impressionante de polêmicas atuais, e é bonito ver a protagonista aprendendo que ninguém consegue estar certo a respeito de todos os assuntos porque, no momento, parece que é exatamente disso que o ativismo online precisa. Recebi essa indireta com sucesso e desejo que a mesma flechada atinja a todos os militantes de qualquer causa no mundo.

Quem cancela o cancelador?

Um ponto amplamente discutido na mídia nos últimos meses tem sido a cultura do cancelamento, mas nenhuma obra de ficção chegou tão perto de dar respostas definitivas sobre o assunto quanto IMDY. Para Coel, quem cancela o cancelador, no fim das contas, é ele mesmo. Lacrar na internet demanda uma energia vital imensa e preciosa que poderia ser gasta em uma porção de experiências mais agradáveis — e reais.

Já me contorci de vergonha observando ativismo feminista equivocado na internet, tenho certeza de que alguém já sentiu isso acompanhando meu ativismo e, de desgaste em desgaste, a gente aprende que é pretensão demais querer dar conta de toda complexidade possível no mundo. Isso não significa, de forma alguma, que não é preciso ou não vale a pena militar; quer dizer que tudo e todos temos limites — o que também é bonito, apesar de agridoce.

Ver uma mulher negra, tão jovem e tão sábia, tão poderosa e tão sofrida, tão polivalente e com uma biografia comovente como a de Coel, falando sobre tantas coisas que a gente precisava ouvir no ano de 2020, é uma espécie de salvação para um ano que a gente nem faz mais questão de salvar. Ficar assistindo os 12 episódios de IMDY quantas vezes forem necessárias até a chegada de 2021 pode ser uma fórmula possível para aguentar os próximos quatro meses. Talvez nem isso, mas eu definitivamente seria menos feliz vivendo em um mundo que não tivesse um trabalho como o de Coel para me inspirar. É duro admitir, mas devo essa a 2020.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.