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Paquera por vídeo é — ou deveria ser — o futuro do Tinder

Luiza Sahd

05/08/2020 04h00

Foto: Love is in The Cloud

Nas últimas semanas, fui impactada pela série de reportagens produzidas pelo TAB UOL sobre o futuro do sexo. As previsões para a próxima década não são muito animadoras: aplicativos de paquera devem virar espécies de redes sociais, haverá muita tela para pouco toque, teremos mais orgasmos e menos contato físico e, com as rupturas provocadas pela pandemia, essas tendências devem se radicalizar no mundo inteiro.

Foi com essas informações e com o relato da colega Ana Bardella em mente que decidi aceitar o convite para participar de uma maratona de oito encontros de 5 minutos às escuras via internet, usando o aplicativo Zoom, por meio da plataforma Love is in The Cloud.

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Como usuária intermitente de aplicativos de paquera há anos — frequento o ambiente por um mês, enjoo, volto depois de tempo e repito a operação — devo dizer que não aguento mais conhecer avatares novos ao invés de conhecer pessoas novas. Quem usa ou já usou Tinder e afins sabe bem como são os rituais: baseado em uma meia dúzia de fotos e de uma breve descrição pessoal (quando há), você escolhe conversar com alguém, fica sabendo nome, idade, CEP e profissão da pessoa do outro lado da tela e logo descobre, caso o papo não migre do digital para o analógico, que vocês não têm nada que os conecte. Sempre lembrando que, ao chegar num encontro ao vivo, também pode acontecer de vocês perceberem que não tem nada a ver estarem ali.

Dito isso, devo dizer que senti pudor de me expor em oito dates via web no LIITC com pessoas que, eventualmente, poderiam não me interessar em absoluto. Mas aí lembrei que nossas fotos estão disponíveis para muito mais gente do que oito pessoas em redes sociais e apps de paquera. Então, soltei a mão da paranóia, preparei um drinque e me arrumei como se estivesse indo a uma balada — opção totalmente inviável no momento — para embarcar no que suspeitava ser apenas mais uma presepada não muito marcante na minha vida.

O amor pode estar na nuvem, sim

O mecanismo do LIITC é genial porque, depois de clicar num link na hora marcada e de ouvir uma breve apresentação das anfitriãs — sem imagem ou voz dos demais participantes com quem me encontraria ao longo da noite –, somos jogados em salas privadas com pessoas que nunca vimos, um contador de 5 minutos e uma pergunta tétrica para que ambos respondam.


O projeto, criado pela designer de experiências Isabella Nardini, se baseia em pesquisas científicas que evidenciaram a necessidade de apenas 3 minutos para que a mente humana decida se está atraída por outra pessoa. No meu caso particular, meu cérebro precisou de pouco mais do que 3 segundos para decidir, quando a câmera abriu em um homem lindo e sorridente numa casa bonita e arrumada, que eu adoraria estar naquele encontro ao vivo, sim. Nossa "missão" ali era responder à pergunta "O que te faria se sentir à vontade agora?". E foi muito divertido construir essa difícil resposta com um estranho atraente em 5 minutos.

Passado o tempo estipulado para o encontro, uma notificação entrou na tela fazendo a contagem regressiva de 10 segundos para as despedidas. Gritamos, rimos muito, terminamos sem saber idade, profissão e CEP um do outro. Recebemos o endereço de Instagram de todos os participantes ao final da experiência e ficou essa abertura para tentar manter o papo quando (e se) os envolvidos quisessem. Se todo date fosse assim, eu não teria uma mazela amorosa para contar na vida.

Os outros sete encontros tiveram outras perguntas complexas e foram me trazendo a noção de como dominar melhor o tempo disponível com os desconhecidos nas salas privadas. A ansiedade foi dando lugar ao prazer de conhecer gente interessante que, mesmo que estivesse no mesmo bar que eu em situação de vida real, poderia passar batida por motivos diversos: desinteresse de alguma das partes, timidez, orgulho etc.

Aos participantes, também era pedido que tivessem à mão um objeto que contasse um pouco sobre quem são. Teve o cara que me mostrou uma sunga, teve outro que ficou tocando violão e não quis saber nada sobre mim e teve quem nem precisasse dessa artimanha para desenrolar o papo. Meu objeto-definição era um par de óculos (e deve ser por isso que estou solteira).

Nostalgia

A dinâmica do LIITC me fez sentir saudades não só dos encontros na vida real, mas também de 2010, quando internautas entediados do mundo inteiro entraram na febre do Chatroulette, onde encontravam gente de qualquer país, em qualquer horário, dispostas a conversar por vídeo — para amizade ou namoro, se fosse o caso.

Atesto e dou fé que interações surpresa por vídeo são muito mais significativos do que paquera por foto e mensagens nos apps como Tinder: na época em que fui viciada no Chatroulette, decidi que era hora de dar um tempo do aplicativo quando um homem quase se despencou da Turquia para me encontrar em São Paulo. Desconfiei a tempo que era longe demais para marcar um encontro real e, chegando a hora, a gente correr o risco de não se gostar; por outro lado, já tive um casamento feliz com uma pessoa que conheci no Twitter. Sigo acreditando, portanto, no poder das redes para outras conexões que não sejam baseadas em notícias que transtornam e memes de gatinhos.

Voltando a 2020, minha série de oito encontros foi tranquila e divertida porque me senti num ambiente seguro e muito menos entediante do que os aplicativos de solteiros — onde a experiência de flertar com fotos e gente apática (eu, inclusive) já não traz o frio na barriga da novidade que esse tipo de interação representava há alguns anos. E frio na barriga já é um pedacinho generoso da infinidade de prazeres que perdemos desde o início de março.

A experiência também foi leve e casual justamente por existir a possibilidade — e não a obrigação — de manter contato com os participantes. Mas ela tem algo que nenhum aplicativo de paquera tem hoje: humanização. Gente viva, em movimento, se arriscando, se olhando, sendo vulnerável, respondendo a perguntas difíceis. Ninguém aguenta mais se relacionar com avatares. Por mim, já existiria o Tinder por vídeo desde antes do isolamento social — e até quando a gente descobrir outras formas menos frias e falsamente seguras de se relacionar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.