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Polêmica com Thammy Miranda mostra de onde vem a transfobia em todos nós

Luiza Sahd

29/07/2020 04h00

Thammy Miranda, o filho Bento e a esposa, Andressa Brito. (Foto: Reprodução/ Instagram)

Em um país conservador como o nosso, era esperado e previsível que a participação de Thammy Miranda em uma campanha de Dia dos Pais provocasse uma torrente de reações de sobressalto e de violência em uma grande parcela da sociedade.

Quer as pessoas aprovem, quer não, Thammy agora é pai e estrela de uma campanha publicitária da Natura, que escolheu, muito sabiamente, o mote "pai presente" em 2020 para falar sobre as descobertas e transformações de pais e filhos. A reação de boa parte do público prova que valorizamos mais um pai convencional do que um pai presente.

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Nesta mesma época do ano passado, tive o prazer de ouvir especialistas brilhantes, pais e filhos para produzir uma longa reportagem sobre como é construída a imagem do pai — e o que se espera dele — no mundo atual. Em um Brasil com 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no documento, não é surpreendente que as pessoas linchem Thammy, um pai presente, por sua sexualidade considerada desviante — ao invés de refletirem sobre o que é ou o que deveria ser um pai digno de respeito e admiração.

De onde vem a transfobia

Lembro vivamente da primeira vez que vi uma pessoa não-binária (cuja expressão de gênero não se limita às categorias masculino x feminino). Foi num ônibus, voltando da faculdade, e fiquei muito intrigada por não conseguir descobrir se estava olhando para um homem ou para uma mulher. Por mais que eu já fosse adulta e tivesse plena noção de que não é educado ficar encarando estranhos — principalmente por causa da aparência deles –, minha curiosidade e ansiedade de categorizar aquela pessoa no meu cérebro como algo familiar falaram mais alto.

Desci do ônibus um pouco frustrada por não ter conseguido "descobrir" o gênero dela e fui entender, anos mais tarde, que há pessoas que não se identificam plenamente com a condição de menino ou menina — e tudo bem ser alguma outra coisa entre essas duas coisas, a não ser por esse estranhamento que a não-binaridade provoca nas pessoas, podendo fazê-las reagir com tanto pavor que elas até agridem estranhos por não entenderem "o que" eles são.

Thammy Miranda é um homem trans, se identifica como homem e, portanto, sua identidade de gênero é diferente da identidade não-binária que me intrigou no incidente do ônibus. O que Thammy tem em comum com pessoas não-binárias é justamente o incômodo que elas podem provocar em quem tem medo de tudo o que não consegue entender.

Por motivos vantajosos do ponto de vista evolutivo, nosso cérebro é condicionado a categorizar o mundo de forma binária: sim ou não, bom ou ruim, frio ou calor, homem ou mulher e por aí vai. O motivo é otimização do tempo de raciocínio. Categorizando tudo o que há no mundo dessa forma binária, escolhendo sempre entre duas opções antagônicas, tomamos decisões mais rapidamente — e ninguém garante que de forma mais sábia. Algo me diz que decisões mais lentas e matizadas trazem mais benefícios para os envolvidos.

No caso da transfobia, o misto de desconhecimento do assunto — já que identidade de gênero não é um tema fácil de colocar à mesa da tradicional família brasileira — com o medo do desconhecido faz mesmo com que as pessoas reajam à pessoas cuja identidade é difícil de categorizar como animais reagem a predadores desconhecidos. Daí para os ataques brutais que vemos contra Thammy e toda a comunidade LGBTQI+, é um pulo.

A falta que uma boa família faz

Pessoas trans sofrem desde a infância, em família, justamente porque não encontram acolhimento no fato trivial de não gostarem de coisas que a sociedade decidiu que correspondiam às genitálias delas. Tentar enfiar uma identidade de gênero goela abaixo de uma pessoa é tão estúpido como era a regra de que mulheres não podiam vestir calças, vigente até o fim do século 19 — com a diferença de que as calças não geraram tanta crueldade e mortalidade como a transfobia causa.

Foi também apurando informações para uma reportagem sobre o tráfico de pessoas que descobri o que tornava pessoas trans mais sucetíveis ao aliciamento. Em geral, as vítimas contumazes do tráfico de pessoas são mulheres, crianças, pessoas trans e travestis, além de migrantes que saem de seus países fugindo de regimes de exceção. O que elas têm em comum? A primeira coisa que os aliciadores fazem é tirar as vítimas de perto de suas famílias ou rede de apoio. No caso das pessoas trans, muitas vezes, a própria família e comunidade local exclui o sujeito, tornando-o alvo fácil de escravidão contemporânea.

Na expectativa de receber amparo emocional e financeiro, muitos acabam criando vínculos afetivos com seus algozes, como acontece especialmente com pessoas trans que foram recriminadas em suas famílias, escolas e comunidades de origem — e encontram em cafetinas figuras quase maternais, que parecem acolhê-las como elas são. Seja qual for a sua identidade de gênero, se você é humano, vai buscar carinho e aceitação nos lugares mais improváveis quando isso não está disponível no lugar mais lógico, que seria dentro da sua casa. E eu não sei você, mas família boa, para mim, é aquela que aceita quem a gente é (sempre que ser o que somos não signifique fazer mal a ninguém).

Luz no fim do túnel

Ver alguém como Thammy Miranda contando sobre sua experiência de paternidade na mídia é um sinal de que novas discussões estão nascendo, apesar da reação negativa de quem tem medo do que desconhece.

Em nossa conversa de 2019, Christian Dunker, pai, psicanalista e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo), disse acreditar que em 10 ou 15 anos, já teremos relatos completamente novos sobre paternidade — inclusive de pais heterossexuais que cresceram com a referência de pais LGBTQI+. "Outros tipos de família estão saindo da clandestinidade e, com isso, teremos novas referências, como aquelas provenientes de famílias com dois pais homoafetivos, por exemplo".

Seja qual for a identidade de gênero dos pais do futuro, tomara que eles tenham a lucidez de associar a paternidade a atos de cuidado e amor. Admiro e respeito pais como Thammy. É exatamente o oposto do que sinto por pais que obedecem padrões de gênero, mas que desviam de tudo quanto poderia significar uma paternidade feliz, saudável e com influência positiva na vida dos filhos.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.