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Japinha, do CPM 22, não entendeu gravidade de assédio a adolescentes

Luiza Sahd

10/06/2020 18h42

Imagem: Cláudio Augusto/Brazil News

Imagine que um roqueiro famoso, de trinta e poucos anos de idade, seja escolhido para escrever uma coluna de dicas sentimentais em uma revista feita para o público adolescente. A ideia, hoje, não parece lá muito boa — mas foi exatamente o que aconteceu: durante mais de cinco anos, Ricardo di Roberto, conhecido como Japinha, baterista da banda CPM 22, foi o cara que aconselhava meninas jovens sobre amor e sexo enquanto, ao que tudo indica, assediava sistematicamente algumas fãs da mesma idade.

Na última semana, o perfil #ExposedEmo vazou no Twitter uma conversa de 2012 entre o músico — então com 38 anos — e uma fã que, na ocasião, tinha 16. Japinha confirmou a veracidade dos prints, mas achou ruim que a garota "tenha optado por expor a história ao invés de ter conversado no privado ou mostrado o rosto na imprensa", como se queixou em entrevista ao UOL nesta segunda-feira (10).

 

 

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A indignação de Japinha é, claramente, fruto de uma consciência pouco familiarizada com o sentimento de vergonha e repulsa que acomete praticamente todas as vítimas de abusos. Quem passa por um constrangimento sexual quer apenas distância de quem cometeu a violência e, geralmente, expõe a situação para alertar outras pessoas, evitando que passem pelo mesmo apuro.

É muito frequente, também, que vítimas de assédio levem anos para conseguir processar emocionalmente o nojo e a revolta pela vivência do abuso. O termo "congelamento da vítima" explica esse fenômeno: boa parte delas sentem vergonha, medo ou culpa por anos, até entenderem que o único culpado por um assédio é o assediador. Pedir que a moça mostre a cara na imprensa é praticamente revitimizá-la — e cobrar que ela sofra, fora o mal-estar que já sofreu, um escrutínio público. Só mesmo alguém sem empatia alguma poderia propor uma coisa dessas.

Consentimento em falta

Na conversa com sua fã de 16 anos, Japinha fez perguntas invasivas e impertinentes, inclusive sobre a virgindade de uma adolescente que pedia para conhecer a banda toda, não ele, em privado. Lendo a conversa até o fim, fica muito claro que a garota não estava dando consentimento para um papo quente. O consentimento, aliás, poderia mudar completamente o teor desta discussão.

Quando a história da fã assediada ganhou popularidade, outras mulheres compartilharam relatos em que Japinha teria se portado como predador sexual. Imagine que você, adolescente, peça para visitar o camarim da sua banda favorita e o baterista solicite uma foto de corpo inteiro para liberar a passagem? Pois parece que eram assim mesmo os bastidores de shows do CPM 22.

 

Diversas mulheres responderam a thread do Twitter com depoimentos pesados sobre Japinha. Uma delas relatou que teria sido atacada pelo artista enquanto dormia na sala de sua casa, embriagada — e já tinha deixado claro que não queria transar com ele.

 

Como se vê pelos prints, "consentimento" não era um valor muito caro para Japinha, que, além de tudo, está culpabilizando as garotas pela exposição de histórias que são parte da vida delas. Certamente, ser intimidada por qualquer cara — e mais ainda por um ídolo — no início de nossas vidas sexuais é uma experiência que deixa cicatrizes. É ou deveria ser direito de qualquer mulher falar sobre sua experiência sem sofrer mais uma pressão psicológica.

Muita raiva, pouco arrependimento

Irritado com as críticas que vem recebendo na internet, Japinha alegou, em entrevista, que "se a justiça tiver que ser acionada para as pessoas pararem de falar, será feito" — como se o assédio de homens mais velhos a adolescentes não fosse um tema sério, de interesse público, e importante para a formação de mulheres mais preparadas para o mundo como ele é. Como ex-conselheiro amoroso de adolescentes, aliás, ele deveria saber disso.

Ser linchado na internet como Japinha está sendo não é, de fato, o meio mais agradável para aprender algo na vida, mas, muitas vezes, a internet é o único lugar seguro de anonimato para que pessoas façam denúncias sem que a corda arrebente para o lado mais fraco.

Quando entrou para a lista de assuntos mais comentados no Twitter, o artista admitiu que não se orgulha e "não gostaria de ter tido a conversa com a fã de 16 anos", mas, em nenhum momento, reconheceu que foi inconveniente, pediu desculpas a ela ou a qualquer garota que tenha se sentido vitimizada por ele durante seus anos de rockstar.

Além de não admitir que teve comportamentos inadequados com fãs vinte anos mais jovens, Japinha culpa as garotas pela exposição de histórias constragedoras que efetivamente aconteceram — já que ele não as desmentiu — e ameaça processar quem siga tocando no assunto.

A essa altura dos acontecimentos, o artista já poderia ter desconfiado que errou com meninas jovens sistematicamente, mas prefere continuar errando. O resultado dessa postura arrogante é que o debate ganha força e, de uma maneira bem paradoxal, Japinha acaba fortalecendo a discussão sempre necessária sobre predadores sexuais no mundo artístico.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.