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Comparações entre Thelma e Babu: ser vitimista é diferente de ser vítima

Luiza Sahd

28/04/2020 17h47

Na rinha que a internet inventou entre Thelma e Babu, vence quem percebe que nenhum dos dois é vitimista. (Foto: Reprodução/ BBB 20)

Nas últimas semanas, a expressão "vitimista" foi mencionada com muita frequência em debates públicos, principalmente por conta do sucesso do BBB 20 e por seus protagonistas — duas pessoas negras com histórias de vida extremamente tocantes. De um lado, estava o ator Babu Santana, nascido e criado no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Do outro, a médica e bailarina Thelma Assis, adotada por uma família de São Paulo e campeã da edição.

Ambos participantes tinham muito o que contar sobre desigualdade e racismo no Brasil. Thelma, que contrariou inúmeras estatísticas para estudar e se tornar médica anestesiologista manteve uma postura mais discreta sobre suas dificuldades pessoais; Babu, que contrariou inúmeras estatísticas para se tornar ator — sobretudo por sua origem e aparência completamente fora dos padrões nesse meio — verbalizou mais as suas causas. Nesse caso, ficou conhecido como vitimista, enquanto Thelma acabou mais associada ao mito da meritocracia, como se todas as pessoas com a história dela pudessem "vencer na vida" — mas em silêncio, porque a militância incomoda muita gente.

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Chamar uma pessoa como Babu, que efetivamente é vítima de um sistema perverso, de vitimista é projetar na própria vítima a nossa impotência para resolver questões sociais fundamentais. Se o mundo fosse um lugar justo, as favelas nem existiriam e Babu não teria motivos para se queixar em rede nacional. Como as favelas existem — e como ele sentiu na pele, a vida inteira, o peso de estar à margem do que todo ser humano deveria ter para viver dignamente — é muito importante que Babu exista e que ele fale dessas coisas na televisão. Alguém precisa falar, e ele cumpriu de forma muito honrada esse papel. Exemplo disso foi quando o ator explicou o significado de usar o pente no cabelo como símbolo de empoderamento.

 

Em dado momento da discussão sobre vitimismo, houve também quem dissesse que Thelma seria omissa por não expor mais abertamente as dificuldades que atravessou desde pequena. É perfeitamente compreensível que alguém como ela, que batalhou muito para se afirmar em um ambiente tão elitista como o da medicina, sinta receio de expor excessivamente sua trajetória, colocando a perder um respeito profissional conquistado a duras penas. É direito dela ser discreta sobre a própria história de vida — ainda que seja de grande proveito para meninas com sonhos e dificuldades semelhantes ver esse tipo de narrativa sendo celebrada no horário nobre na Rede Globo.

Como milhares de pessoas do mundo inteiro, Thelma e Babu, cada um com suas particularidades, são duas vítimas de opressões evidentes. Nenhuma discussão razoável deveria perder isso de vista. O que eles fazem com as próprias narrativas não deveria ser instrumentalizado para defender argumentos rasos sobre meritocracia ou colocá-los um contra o outro.

Vítima X vitimismo

É lamentável a frequência com que vítimas de crueldades reais são chamadas de vitimistas, como aconteceu com Babu Santana. As vítimas de violações de direitos humanos básicos, de machismo, de discriminação — pense aí na pauta identitária de sua preferência — são sempre desaconselhadas a falar abertamente sobre suas experiências dolorosas. Se levantar contra injustiças deveria ser motivo de orgulho, mas temos uma sociedade que reprime com veemência quem se queixa do que deveria se queixar, mesmo.

Vitimista é a pessoa que não foi vítima de nada e, sistematicamente, se coloca no lugar de injustiçada. As vítimas de injustiças reais são muitas no Brasil — e elas não deveriam ser revitimizadas por pessoas privilegiadas apontando dedos, insinuando que a dor alheia é ilegítima.

Acompanhando o debate sobre vitimismo nas redes, senti vergonha de conhecidos brancos, bem criados, saudáveis e bem alimentados palestrando sobre como um homem que veio da favela deveria ser mais comedido ao falar sobre suas dívidas, suas impressões sobre a questão racial e sobre suas ambições. Muitos deles, seguramente, se sentem menos preconceituosos torcendo pela vitória da mulher negra e batalhadora mais comedida na militância. É quase como dizer "ser vítima tudo bem, mas reclamar já é demais".

Hoje, celebro a vitória de Thelma no programa e espero que esse 1,5 mi de reais traga confortos que ela nunca sonhou que poderia ter. Torço também para que a voz de Babu continue ressonando e incomodando quem não sabe diferenciar uma vítima de um vitimista. Demora, mas todos os dias a gente aprende alguma coisa.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.