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Como Marcela do BBB20: 4 erros que feministas brancas costumam cometer

Luiza Sahd

07/04/2020 04h00

Tá tudo bem se vestir de fada sensata se você conseguir sair do personagem depois. (Foto: Reprodução/ BBB)

Só existem dois assuntos noticiosos no Brasil atual e ambos envolvem confinamento. Apesar de todo o desespero que a pandemia do novo coronavírus vem causando, quando chega a terça-feira, o brasileiro médio — exausto, cabisbaixo — só quer falar de Big Brother Brasil 20, a única casa do país (quiçá, do mundo) na qual as pessoas não passam o dia discutindo a covid-19 e seus desdobramentos.

Aparentemente, a combinação de tédio e isolamento social fez com que dez entre dez cidadãos tivesse ao menos alguma noção do que tem acontecido na edição 20 do BBB (sendo que, desses dez, uns seis já relatam dormir e acordar com a vinheta do programa na cabeça). Assim, de alguma forma, todo mundo já sabe que a discussão sobre racismo vem ganhando cada vez mais importância na casa mais vigiada do Brasil.

 

Na noite de terça-feira (07), Marcela Mc Gowan foi eliminada  do Big Brother Brasil 20 com 49,76% dos votos* — nas entrevistas que dará nos próximos dias, a médica deve ouvir uma tonelada de questionamentos sobre a forma como ela e suas amigas tratavam o ator Babu Santana durante a edição.

Assim como Marcela e outras participantes brancas do programa — que falam sobre a importância do feminismo e militam pelo fim da opressão contra mulheres –, muitas de nós, feministas brancas, sofremos de cegueira para outros tipos de opressão. Na última semana, Gizelly, melhor amiga de Marcela, se referiu à base que uma participante de pele negra passa no rosto como "barro".

 

Essa não foi a primeira nem a única demonstração de racismo por parte do grupo de Marcela na casa. Aqui fora, as coisas não são muito diferentes: quando pensamos em racismo estrutural, muita gente cheia de boa intenção, mas com pouca consciência de classe acaba oprimindo pessoas negras enquanto reclama das opressões sexistas que sofre. Em algum momento, a ficha de todas nós, feministas brancas, precisa cair para as seguintes questões.

Desrespeito ao lugar de fala

Sabe quando um homem chega palestrando sobre feminismo para uma mulher? É uma vergonha que ninguém precisaria passar, mas passa.

Algo semelhante acontece quando Marcela e Ivy ignoram os posicionamentos de Babu sobre os conflitos na casa. Na noite do último domingo (05), o trio teve uma longa discussão de relacionamento — eventualmente motivada pelo medo das meninas de enfrentar o cara que já voltou de 5 paredões — e elas simplesmente não ouviram nada do que ele explicou ali: entraram e saíram da discussão achando que estavam certas em tudo, sem prestar atenção ao tanto que Babu se ressentia de ser sistematicamente isolado pelo grupo delas ao longo de dois meses, mesmo sem ter dado mais motivos do que outros parcipantes tolerados pelo grupo "hippie" das meninas.

Lugar de fala pode ser resumido, muito singelamente, no direito que só quem passou por uma opressão em concreto tem de explicá-la. No caso do BBB20, o lugar de fala de Babu foi 100% ignorado. Para uma reflexão decente sobre esse tema tão importante, recomendo vivamente o livro da colega Djamila Ribeiro, não explicações singelas.

Ignorar lugar de fala quando a gente (assim como a Marcela) tem noção do conceito é errado demais. Não é porque você sofre algum tipo de opressão que você vai minimizar todas as demais. Não existe Super Trunfo de opressões, mas existe a boa intenção de ter todas em conta para não passar por cima de ninguém e, nessa meta, a gente consegue mirar tranquilamente.

Soberba

A cada vez que Marcela e Ivy mandam um "você melhorou muito" pro Babu, sinto que perdi uma semana de vida, de tanto nervoso. Primeiro porque o Babu não mudou em nada, não "melhorou" em nada e, principalmente, não pediu a opinião das meninas sobre ele. Falar uma coisa dessas é tentar medir todo mundo a partir de sua própria régua moral.

Dizer que alguém "melhorou" deveria ser direito reservado apenas a pessoas cuja opinião foi solicitada. Fora dessas circunstâncias, que tipo de pessoa vira para outra e diz que ela "melhorou"? Resp: alguém com muita soberba e pouco bom senso.

Antes de dizer que alguém melhorou, é bom a gente checar se a pessoa tá a fim de avaliação professoral. Geralmente, ninguém está.

Esquecer do racismo estrutural

Para quem está familiarizado com o conceito de machismo estrutural — que a própria Marcela explica muito bem — o conceito de racismo estrutural é bem simples de entender. Ele está metido na cabeça das pessoas de uma forma tão concreta (e, às vezes, tão sutil) que é necessário se perguntar, diariamente, em que situações andamos colocando nosso racismo e como parar com isso.

Da mesma forma que feministas se cansam de ficar explicando sobre micromachismos para homens crescidos, é natural que as pessoas não-brancas estejam exaustas de explicar que o racismo estrutural está lá em atitudes como as das meninas tentando emplacar, a qualquer custo, uma imagem de besta agressiva associada a Babu Santana porque ele reclamou de cozinha imunda, roupas dele jogadas no chão, privação de comida e outras demandas ordinárias do jogo.

O esforço de não cometer violências análogas àquelas de que a gente tanto se queixa é tão importante quanto nossa causa pessoal.

Passar pano para outras opressões

Diz o poeta que pimenta nos olhos dos outros é refresco e ele está coberto de razão.
Não existe forma honesta de ser racista. O que existe, sim, é forma honesta de reconhecer que tivemos alguma atitude racista, escutar os porquês quando for o caso e se desculpar, tentando aprender algo a pessoa ofendida.

Dizer que alguém "é racista, mas": sem condições.

 

A gente foge do medo de ser racista como o diabo da cruz porque sentimos vergonha de ter nossa reputação associada a algo tão cruel. O problema desse pavor é que a gente acaba não assumindo o óbvio: o racismo estrutural existe e a gente é parte dele. Quando nós, pessoas brancas, aceitamos essa verdade, ganhamos também a oportunidade de ouvir, aprender e melhorar como sociedade.

Daqui do meu lugar de fala, desconfio já ter sido meio Marcela muitas vezes na vida. Acho importante carregar essa vergonha comigo cuidadosamente, para não esquecer de duas coisas importantes: 1- a gente consegue melhorar, mas 2- a gente nunca foi e nunca será melhor do que ninguém, mesmo que toda a sociedade minta muito a esse respeito.

*Matéria atualizada no dia 08/04, com o resultado da eliminação do BBB

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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