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Por que não existe versão feminina dos galãs feios?

Luiza Sahd

14/01/2020 04h00

Phoebe Waller-Bridge tem sido apontada como a anti-musa mais gata do ano. (Foto: Divulgação/ Amazon Prime Video)

 

Na última semana, falei aqui sobre as vantagens de se apaixonar por um homem feio. Publicar texto de humor sobre homens mal diagramados oferecia dois riscos óbvios: que algumas pessoas não interpretassem como texto de humor e que reagissem, em massa, me chamando de baranga. Não seria a primeira vez; provavelmente, não seria a última.

Para minha grande surpresa, o que mais recebi foi carinho da população por fazer graça com homens feios. Alguns leitores confessaram sentir orgulho de serem mal-apessoados porque "macho de verdade é feio mesmo". Enquanto isso, no Twitter, a mesma galera que discutiu exaustivamente a aparência de Adam Driver estava em busca da versões femininas de "galãs feios" que Driver representa tão bem.


Acompanhando a discussão acima, fica claro como as pessoas têm pudor demais para insinuar que alguma mulher possa ser, simultaneamente, musa e meio feia. Tudo acaba resvalando para a resposta "mas fulana não é feia!". Aconteceu comigo também: quase mordi a própria testa lendo, repetidas vezes, que Phoebe Waller-Bridge (a protagonista de Fleabag) seria uma boa definição de anti-musa.

Para explicar a diferença de pesos entre dizer que um homem é feio e que uma mulher é feia, a gente infelizmente vai precisar falar sério e lembrar que, até pouco tempo atrás, as mulheres não podiam ser muitas coisas além de belas, recatadas e do lar. Até a década de 1960, no Brasil, mulheres precisavam de autorização formal do pai ou do marido para trabalhar. Ou seja: nem tinham como sonhar com outros objetivos além de serem as mais lindas esposas.

Quase todas as avós e mães que conhecemos (e todas as mulheres que vieram antes delas) não tinham autonomia para serem feias-mas-poderosas, feias-mas-divertidas, feias-mas-talentosas e tudo isso que os homens sempre puderam ser. Obviamente, elas nos criaram com estes valores — e na melhor das intenções.

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Nessa discussão, um colega opinou que as mulheres são muito mais complacentes com a feiura masculina do que os homens costumam ser com a feiura feminina. Ele concluiu, com isso, que somos mais generosas. Eu adoraria concordar, mas discordo: fomos todos criados para seguir a divisão clara de como um homem atrativo deve ser (viril/ poderoso) e de como mulher atrativa deve ser (bonita/ carinhosa).

Partindo dessas ideias, é claro que a maioria das mulheres ficam paranóicas com a própria aparência e se contentam com parceiros feios e poderosos em alguma medida. Ser bonita sempre foi a mais importante virtude feminina. A arte clássica, a mitologia, os filmes da Disney e as letras de música do grupo É o Tchan! estão aí para comprovar.

Com exceção da parte sobre o É o Tchan!, tudo isso é uma pena, mas devo admitir que dou gostosas risadas quando dizem maldosamente que "a beleza do homem está na carteira". Em um mundo todo feito por e para homens, os responsáveis pela construção dessa dinâmica foram justamente eles. Se queixar de mulher interesseira é coisa de quem não lembra que os interesses das mulheres foram todos delimitados pelo pátrio poder.

"Não existe mulher feia, você que bebeu pouco"

Outra colaboração masculina para o tabu das musas feias é aquele papo de que homem de verdade está sempre pronto para comer mulher. O ditado "não existe mulher feia, você que bebeu pouco" é a mais perfeita definição do binarismo homem viril/ mulher-objeto. E ele é tão falacioso que a gente sempre ouve o contrário disso quando um homem muito bonito aparece namorando uma mulher que não se encaixe no mesmo padrão. Foi assim com o casal Marília Gabriela e Reynaldo Gianecchini, é assim com Keanu Reeves e Alexandra Grant, vai continuar assim enquanto a gente não desistir de reproduzir certas lógicas que já não se encaixam na realidade.

Com a revelação de que mulheres podem ter novos papéis na família, no mercado de trabalho, na ciência, na mídia ou nas artes — como é o caso de Phoebe Waller-Bridge –, a expectativa é de que as mulheres possam ser, num futuro próximo, atraentes das mais variadas formas. Inclusive de formas que não estejam atreladas à beleza física.

Então, quem sabe, a gente vai finalmente poder contar com a tão esperada categoria "musas feias" para descrever mulheres que não parecem bonecas — mas que daríamos tudo para chamar de mozão. Com um tanto de otimismo, também dá para esperar que homens não precisem se reduzir a grandes comedores ou provedores e passem a ser, quem sabe, melhores companheiros em sentidos mais amplos. Se combinar direitinho, todo mundo consegue ser sexy.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

Blog da Luiza Sahd