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Por que falamos mais sobre tortura de cadela do que de problemas sociais?

Luiza Sahd

07/12/2018 04h00

Em linhas gerais, cães e crianças são o que conhecemos de mais semelhante a anjos, mesmo. (Foto: Reprodução/ Facebook)

Em 2014, eu trabalhava na Editora Abril e dividia meu tempo entre as reportagens e os cuidados com os cinco filhotes da minha cachorra, que tinha acabado de dar cria. No total, tínhamos sete cães em casa. Obviamente, estive meio obcecada pelo assunto por alguns meses.

Foi então que a Superinteressante me convidou para escrever um livro detalhando o que a ciência já descobriu sobre saúde e inteligência canina. Passei um ano lendo, observando e entrevistando especialistas de diversas áreas sobre o que colocou os cães tão perto dos humanos — no meu caso, tão perto que eventualmente rouba o meu lugar na cama. Em 2015, publiquei  "A mente do seu cachorro" e nunca mais vi os cães (nem seus donos) com os olhos de antes.

Durante a apuração do livro, as duas descobertas que mais me emocionaram foram, pela ordem:

1- Os cães produzem oxitocina quando interagem com seus donos.
A oxitocina, conhecida como "hormônio do amor", é a substância que mães e bebês produzem durante a amamentação. Quando nos apaixonamos, o nível de oxitocina no nosso corpo duplica. Já foi demonstrado, também, que a produção de oxitocina no corpo torna os homens menos agressivos. Em resumo: a ciência encontrou a prova definitiva de que os cães sentem amor, assim como nós.

2- Cães têm praticamente os mesmos sentimentos que humanos de dois anos de idade.
O sistema cognitivo dos cães foi vasculhado pelos cientistas nas últimas décadas. Resultados recentes de pesquisas demonstram que eles são capazes de sentir, expressar e entender basicamente as mesmas coisas que um bebê humano de dois anos de idade. É por isso, também, que muita gente vê os cães como se fossem bebês: do ponto de vista comportamental, é isso mesmo o que eles são — eternos bebês de dois anos em termos de inteligência e comportamento.

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Outros dados científicos dão conta dos fatores que fazem com que tanta gente ame cachorros: o animal foi moldado pelos próprios humanos para atender às nossas necessidades práticas (como é o caso dos cães de trabalho) e emocionais, como acontece com os cães de companhia.

Recapitulando: cães foram moldados, ao longo de séculos, para serem o quisermos que eles sejam. Eles são símbolos de lealdade porque não julgam nossas atitudes e, de modo geral, não sabem fazer muitas coisas além de dormir, comer, brincar e pedir carinho, como faria a tal criança de dois anos. Por tudo isso, é perfeitamente compreensível que a gente ache tão chocante quando acontece o que aconteceu em uma loja do Carrefour Osasco no último dia 28: uma cadela vira-lata foi espancada até a morte por um segurança do local.

Em um país como o Brasil, que maltrata tanto suas pessoas, é evidente que a gente vai se perguntar se há uma inversão de valores quando a morte de uma cadela ganha mais atenção midiática do que histórias sobre tortura humana. Uma das chaves para interpretar esse fenômeno é, provavelmente, esta: humanos sempre esperam o pior de humanos. Em relação aos cães, a expectativa é de inocência e bondade. Aqui, estamos falando de arquétipos e inconsciente coletivo, não de fatos.

Dizer que a morte da cadela do supermercado é mais relevante do que a morte brutal de tanta gente no país é uma estupidez equivalente a dizer que a história da cadela não mexe com o nosso emocional em lugares especialmente delicados.

Qualquer brasileiro minimamente alerta sobre a realidade em que vivemos vai dormir e acordar indignado com brutalidades diversas, mas tentar fazer um Super Trunfo de indignações também não ajuda em quase nada. Dizer que alguém não pode ficar muito comovido com o caso do Carrefour porque há pessoas em casos piores de sofrimento é como dizer que não podemos sofrer por futilidades (dor de cotovelo, inseguranças) enquanto há gente passando fome no mundo.

Podemos sofrer por muitos assuntos diferentes de maneira simultânea. Infelizmente, temos essa capacidade programada nos nossos genes e, por isso mesmo, é importante notar que a comoção com o caso da cadela espancada é também um sintoma de que o amor ainda nos comove enquanto sociedade — e que os cães são um arquétipo importante de ternura e afeto para nós.

Se você não se indigna com a crueldade cometida contra um ser terno e indefeso, da espécie que for, isso sim é preocupante. No mais, temos espaço mental para muitas dores fora essa. Elas são legítimas sempre que mexem com o nosso coração, a nossa oxitocina e a nossa humanidade como um todo.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.