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Luiza Sahd

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Zoar, beber, locar a van: você tem certeza de que curte muito ser solteiro?

Luiza Sahd

24/07/2019 04h00

Existem mil maneiras de ser solteiro sem que sua vida fique de pernas para o ar. (Foto: Reprodução/ Catherine Kim)

Quem tá solteiro levanta a mão! Agora pode abaixar para se recuperar da ressaca que a última noitada regada a álcool, papo mole com estranhos e música alta provocou.

Se você está descompromissado e encara a vida de solteiro como uma grande aventura norteada pela magia de noites doidas e pegação aleatória, pode ser que esteja enganado sobre os prazeres que a solteirice pode proporcionar para além da poligamia — até porque a poligamia pode ser praticada em relacionamentos conjugais estáveis. De preferência, com a anuência de todos os envolvidos.

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Ultimamente, andei incomodada com o estatuto dos solteiros e temo perder minha carteirinha de solteira típica: deletei os aplicativos de paquera, dificilmente animo participar de qualquer confraternização que exija preparo físico para lidar com azia e meu maior prazer é contar com solidão e tempo livre para fazer uma série de nadas, bem escondida de aglomerações humanas.

Preocupada com a mudança radical de comportamento, me perguntei sinceramente se isso poderia ser um comportamento depressivo. Ninguém nunca espera que a vida de solteiro destoe muito da rotina de zoar e beber, locar uma van e levar a rapaziada para o seu apê. Para mais informações, clique aqui:

Toda vez que essa música — indiscutivelmente contagiante — chega na parte em que o moço fala que a geladeira "tá lotada de cerveja", sinto pontadas na cavidade abdominal e tomo um chá gelado de camomila para rebater. Enquanto isso lembro, sem saudades, de tudo aquilo que a cultura nos vendeu como a rotina do solteiro mítico. No imaginário coletivo, pessoas solteiras sempre têm oportunidades imperdíveis de experimentar aventuras como: 

  • Acordar com a casa levemente depredada após uma reunião de amigos que saiu do controle;
  • Acordar em uma casa levemente depredada ou não, mas que você nem reparou direito aonde fica para voltar para a sua;
  • Trocar fluídos com pessoas desconhecidas que podem se revelar completamente doidas ou pouco confiáveis ao cabo de poucas horas;
  • Gastar pequenas fortunas para frequentar festas que terminam com rapazes embriagados atirando garrafas e cadeiras porque (quem diria?) se esbarraram em uma pista de dança lotada.


A raiz desses infortúnios típicos do guerreiro, praieiro e solteiro deve ser a ideia de que o solteiro é, antes de tudo, um predador natural. Não parece uma contradição enorme quando alguém diz que odeia namorar mas dedica todo o tempo livre de que dispõe a se sentir agradável aos olhos de outras pessoas? 

O solteiro feliz não é necessariamente aquele pega geral, mas o que sabe apreciar a própria companhia e a companhia de pessoas com quem não se relaciona eroticamente. 

Se você é solteiro e seus verdadeiros mozões são os amigos, você provavelmente é um solteiro mais pleno do que a galera que zoou, bebeu e locou uma van (até porque é muito perigoso conduzir van depois de zoar e beber).

Pensando nisso, deixo aqui um pequeno checklist de situações em que só o solteiro raiz, o solteiro moleque se dá bem

Viver despreocupado mesmo no maior zero a zero

Você tava bonita, você tava toda natural, foi pra balada, beijou um total de zero boca e voltou para casa convencida de que quem perdeu foi quem te perdeu? Meus parabéns, solteira plena.

Viajar sozinho: um sonho dourado

Viajar na sua própria companhia não deveria ser um sacrifício. Chega a ser difícil enumerar a quantidade de vantagens possíveis quando se viaja sem precisar coordenar interesses, gostos e planos com uma ou mais pessoas. Se você se sente desamparado, entediado ou desprotegido durante uma viagem solo, isso pode ser um ponto de atenção para melhorar sua relação consigo mesmo.

Balada todo dia?

Sentir desespero para ver/ pegar/ interagir com uma multidão não é exatamente um modelo ideal de rotina saudável. É claro que isso não tem nada a ver com moralismo: muita gente trabalha em atividades que envolvem uma vida noturna quase diária. Se esse não for o seu emprego e você continuar batendo cartão em baladas todos os dias, talvez seja o caso de se perguntar sobre os porquês desta louca obsessão.

Datas comemorativas: o que tenho a ver?

Dia dos Namorados, Réveillon, aniversários e congêneres não abalam a sua autoestima quando você é um solteiro satisfeito com as suas circunstâncias. Lembrando sempre que não gostar de estar solteiro também é permitido por lei — portanto, não tem problema sofrer nessas ocasiões caso você não fique se enganando sobre amar a solteirice.

Vaidade também é gostar da sua cara lavada

A ausência completa de vaidade pode ser um indicativo de que algo vai mal com a autoimagem de uma pessoa. Por outro lado, o excesso de cuidado com a aparência física também evidencia uma relação não muito saudável com a própria aparência natural. Solteiro feliz é solteiro que consegue sair de casa com e sem produção visual.

Balada em missão de paz

A medalha de ouro do solteiro raiz vai para aqueles que são capazes de frequentar festas em missão de paz, sem foco excessivo naquela função doida de paquerar o tempo todo — que só serve para fazer a gente perder os melhores momentos com os amigos. Mas se quiser paquerar durante uma missão de paz, também pode.

Por último e não menos importante, o solteiro pleno não se preocupa excessivamente com essas teorias todas sobre a solteirice. Como já diziam os memes imemoriais do Orkut, ser feliz ocupa tempo demais na vida deles.

Adeus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.