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Como se ensina um filho a amar uma mãe?

Luiza Sahd

11/05/2019 04h00

Cena de "Minha mãe é uma Sereia", baita filme que fala muito melhor sobre o assunto do que eu. (Foto/Reprodução)

 

O assunto da semana na internet é "amor de mãe". Em geral, as declarações chegam acompanhadas de histórias de abnegação materna. Todos os anos, me emociono com várias — mas confesso que também acho divertido brincar de reler certas frases como se fossem sobre um pai. Quase sempre, o textão fica parecendo lorota de pescador. Recomendo vivamente o exercício a todos, já que o 12 de maio está aí.

Voltando às mães, todas as pessoas vivas deveriam sentir gratidão em algum nível por suas genitoras. Nunca foi (e pelo andar da carruagem, jamais será) fácil emprestar o próprio corpo, durante quase um ano, para que outro ser passe para o lado de cá. Não vamos nem falar sobre parto: mesmo as mães mais cruéis com os filhos fizeram esse gesto heróico por nós que aqui estamos. 

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Tendo em conta só a gestação e puerpério, as mães já deixariam os pais comendo poeira na escala de merecimento de uma declaração caprichada no Instagram pelo seu dia. Mas se nossa expectativa em relação às mães parasse por aí, elas não seriam assunto de terapia com tanta frequência. Na visão de Freud, aliás, os bebês sempre esperam da mãe "o amor ilimitado e posse exclusiva, que não se contenta com menos que tudo".

Além de mãe, essa mulher é uma mulher

Aos olhos da psicanálise, é mais ou menos isso: a gente nasce achando que ainda está grudado ao corpo da mãe — e ela precisa se virar para provar o contrário a este ser que ainda nem aprendeu a falar. A missão já é, por si, suficientemente dura. Acontece que a parte ainda mais difícil da maternidade pode ser aquela de fazer com que outras pessoas (adultas!) entendam o mesmo recado.

Não deveria ser certo ensinar que devemos admirar nossas mães por causa da abnegação delas; deveríamos ensinar que essas mulheres podem ser admiradas pelas pessoas que são. Fora isso, elas também precisam ter mais direito de sê-lo: aos pais, ninguém pergunta se a chegada do bebê provocou uma crise de ordem profissional ou sexual — inclusive porque quase nunca provoca, mesmo. Quantos pais são demitidos quando seus filhos nascem? Quantas vezes você já se perguntou "cadê o pai dessa criança" quando vê um bebê que parece mal cuidado? Quando foi que um pai solteiro, criando filhos sozinhos, foi chamado de sem-vergonha por se envolver com outra mulher?

Não se engane: louvamos tanto a figura materna uma vez ao ano porque a gente sabe que, em todos os outros dias, ela terá sua individualidade pisoteada como nenhum outro membro da família. A homenagem mais bonita que poderíamos fazer às nossas mães deveria ser o reconhecimento de que estamos errando demais com elas, geração após geração.

Expectativas viram desgosto

Esperar que uma mãe seja devota dos filhos por toda a eternidade não repercute mal apenas na vida dessa mulher; no filho que teve uma expectativa frustrada de entrega incondicional, essa ideia também provoca traumas profundos. Sempre me pergunto quantas crianças devem ter crescido achando que não foram suficientemente amadas pelas mães quando estas mulheres estavam apenas sobrecarregadas feito animais de carga — e, obviamente, não deram conta de proporcionar tudo o que filhos e sociedade esperavam delas.

Quem passa o discurso do amor materno sublime para frente está, na verdade, colocando cascas de bananas no caminho natural de mães e filhos — indivíduos diferentes que precisam do tempo de uma vida inteira para aprender a lidar com essa relação de intimidade tão invasiva, amando e aceitando um ao outro sempre que possível. Às vezes, acontece de ser impossível e as pessoas ficam escandalizadas. Não deveriam.

Espero viver para ver a maternidade deixar de ser sinônimo para uma batelada de sacrifícios injustos. Quando acontecer, os filhos também vão se sentir mais livres para enxergar, aceitar e amar as mulheres que são suas mães — inclusive fora da internet.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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