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Luiza Sahd

Responsabilidade afetiva: você se apaixona pelo que acha que merece

Luiza Sahd

11/01/2018 08h00

Não é exatamente uma novidade que a gente queira ter aquilo que achamos que merecemos. Outro dia, me perguntaram no Curious Cat o que eu gosto de ganhar de presente. Pô, eu gosto e acho que mereceria um iate, mas temos alguns probleminhas em relação a isso:

Presente feito com o coração também é fofo, vai. Não diverte tanto quanto iate, mas dá pro gasto.

 

Pensando pelo lado positivo da coisa, é muito fácil a gente se imaginar merecedor de um milhão de amigos, sossego, viagens, banheira de espuma e barriguinha cheia. Na prática, todo mundo dá tiro no pé em algum momento da vida e acaba buscando oposto disso, inconscientemente.

Lá por 2011, alguém teve a presença de espírito de inventar o termo "boy lixo" pra designar aquele cara que não quer nem entrar definitivamente na sua vida — e muito menos sair. A expressão pegou, principalmente, porque a gente adora um boy lixo como adora comer um lanche podrão depois de uma festa. Quando passamos mal, reconhecemos que talvez não tenha sido uma boa ideia mandar 200 gramas de Catupiry pra dentro às 4 horas da manhã, mas o mesmo não acontece com o boy (ou girl) lixo.

A pessoa não te enxerga de verdade, não se interessa por você ou não permite que você participe da vida dela e você continua querendo muito isso? Talvez você seja um boy lixo de si mesmo, sinto contar. Não que eu nunca tenha sido.

A questão da responsabilidade afetiva está na moda e isso não é ruim. É sempre legal quando uma discussão sobre sentimentos ganha grandes proporções e quando a abordagem disso não é cínica, porque tudo tem sido meio cínico ultimamente. Inclusive a gente.

Outra coisa boa é quando as pessoas não tratam as outras como alpiste de ego, mas nem sempre é possível contar com a colaboração alheia nesse sentido. Assim como acontece com as faturas e a pilha de louça acumulada, há coisas que precisamos fazer sozinhos — e pode ser que a responsabilidade afetiva seja uma das mais urgentes. Caso contrário, fazemos cosplay de cachorro de rua que segue qualquer estranho a espera de algum afeto. Com sorte, talvez a gente tenha mais capacidade de julgamento do que um cachorro de rua faminto. Teria mais sentido fazer diferente.

Sofrer por querer quem não quer a gente é a coisa mais comum do mundo (se não fosse assim, metade das músicas já compostas ao longo dos séculos não existiriam, para mencionar só uma forma de expressão artística), mas alguma vez a gente se pergunta por que acha que quer e merece aquela pessoa, trabalho ou estilo de vida que não cabe nas nossas circunstâncias?

Chuto que a gente se pergunta pouco, porque a resposta pode ser meio dolorosa. De qualquer maneira, não dá para cobrar de fora a responsabilidade afetiva que a gente não consegue oferecer nem para si mesmo. Talvez seja isso o que esvazie um pouco a discussão sobre responsabilidade afetiva, na verdade.

Toda vez que você teimar que quer alguma coisa que não se encaixa na sua vida, experimente perguntar por que quer tanto um elefante branco na sala. E nunca se esqueça de celebrar, às vezes, os nãos que o universo nos dá.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.