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Luiza Sahd

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Soft Skills: o que a expressão da moda nos RHs ensina sobre sutileza

Luiza Sahd

05/09/2018 04h00

Foto: Reprodução/ eating.dis.order

No meu prédio, é proibido tirar o lixo de dentro de casa durante os finais de semana, porque a zeladora só trabalha de segunda à sexta-feira e, nos finais de semana, a lixeira fica trancada. Daí, cada um que se vire com seu chorume — inclusive porque largar saco de lixo na rua rende multa de até 800 € e prefiro dormir abraçada com verdura podre a gastar 800 € por motivo torpe.

Foi na última sexta-feira que, acometida por um misto de proatividade idiota com senilidade, decidi fazer uma limpa na geladeira. Aconteceu o que estava escrito nas estrelas: na segunda, hora de descer o lixo, percebi que fui agraciada com uma colônia de larvas no latão da cozinha. Não tenho ideia de como aquilo tudo se desenvolveu tão rápido mas, enquanto jogava um blend de todos os produtos de limpeza e água fervente no criadouro de mini monstros, a repulsa beirava o vômito e quase chorei.

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Duas horas depois, saí para tomar um sorvete, lembrei da cena funesta do lixo e senti uma larva fantasma na minha boca. Larvas são só larvas, mas entrei numas de pensar o que teria acontecido ao cabo de mais dias, semanas, meses e tal se eu não as tivesse exterminado. Lembrei de outro animal quase invisível que causa verdadeiras hecatombes: mosquitos são os animais que mais matam pessoas no mundo (e a gente segue atormentado por medos menos prováveis, do tubarão no banho de mar à queda do avião).

Como será que aconteceu essa trapalhada conceitual coletiva de só associar poder à força bruta e à opulência? Você pensa em poder e lembra do Rambo, mas a ciência já provou que as bactérias mudaram mais o mundo nos últimos séculos do que qualquer guerra, sistema econômico ou civilização. No entanto, seguimos teimando em não crer na força do que não é muito maior que a gente.

Todo o poder das larvas, mosquitos e bactérias me lembram o ensinamento recente de uma amiga (obrigada, Fernanda!) sobre soft skills, o termo da moda no RH de qualquer empresa. Em tradução literal, seriam "habilidades de maciez" e rezo todo dia para que um dia traduzam assim — o que não vai acontecer, porque já estão chamando as soft skills de competências sociais ou gerenciais — mas importante mesmo é esse papo de valorizar a força da sutileza.

Nos negócios, as softs skills são valorizadas porque o portador desse talento é aquele cara que consegue dizer não sem ofender, fazer críticas sem atacar o colega, propor algo ousado sem parecer doido ou, se preferir: pessoas que simplesmente não tiveram cérebro empanado e frito na brutalidade do dia a dia, acreditando que se portar como um moedor de gente é sinônimo de força ou poder e tal.

Se você estiver procurando trabalho novo, estudar essas competências é uma boa pedida; se estiver apenas almejando uma vida minimamente saudável das ideias, entender as soft skills é imprescindível.

De tanto enrijecer, muita gente racha no meio — e ninguém quer rachar no meio. Olhando ao redor com cuidado, tá todo mundo meio trincado ou esturricado, mas, enquanto há vida, sempre há tempo de amolecer. Tenho provas: a coisa menos hipócrita em textão de Dia da Mulher ou Dia das Mães é quando o pessoal começa a falar da força delas. Ninguém deixa muito claro que esse poder todo vem da sutileza — e que esse tipo de energia tem mais a ver com a criação, enquanto a opulência é um poder, sim. Mas um poder de destruição.

Acho engraçado, porque o mundo parece obviamente saturado do poder de destruição e, por enquanto, esse papo de sutileza ainda parece conversa para boi dormir. Deve ser mesmo: andei maravilhada com o poder dos bichinhos microscópicos mas, na primeira oportunidade, morrendo de medo, massacrei um por um.

Torço para, pelo menos, ter aprendido algo com eles.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.