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Luiza Sahd

É muito chato ser a Alanis Morissette da relação

Luiza Sahd

07/07/2017 12h03

Dia desses, recebi uma mensagem chocante de uma amiga no Whatsapp. "Odeio tentar discutir qualquer coisa com os caras que eu fico enquanto eles praticamente lixam unha. É muito chato ser a Alanis do rolê."

Lembram da Alanis no clipe de "Ironic"? (Foto: reprodução)

BUM! Explosão de cérebro. Essa mensagem calou fundo no peito.

Em 1997 sofri meu primeiro ataque de Alanis Morissette ao som de Alanis Morissette, quando algum garoto da minha rua que usava aparelho e andava de skate pediu uma menina em namoro –- que feliz (ou infelizmente) não era eu.

No ano em questão, o zeitgeitst era Leonardo DiCaprio desistindo da tábua de salvação para poupar a Kate de morrer no Titanic, os Backstreet Boys jurando em vão que  "I'll Never Break Your Heart" (Eu Nunca Vou Partir Seu Coração) e os irmãos Hanson nem aí com nada berrando que MMMBop e não-se-que-não-sei-que-lá.

Nossa geração foi exposta a uma educação sentimental bem equivocada. Daí chega a Alanis perguntando logo no primeiro verso do primeiro álbum de sucesso: Do I strees you out? (Eu te estresso?) …

Pra depois descer o cacete no cara com frases do tipo "Não quero analisar tudo hoje/Não quero procurar defeitos em você, sabe?/ Mas não consigo evitar (…) Estou frustrada com sua apatia/ E amedrontada com os caminhos corruptos dessa terra".

Meu, ela tinha 19 anos quando escreveu essas coisas. As duas únicas certezas sobre isso são que 1) o muso inspirador da música não sabia onde ela tava querendo chegar com tanta filosofia e demanda; 2) valeu a pena. Ela vendeu 35 milhões de cópias desse disco, até porque o pessoal ainda pagava por disco nessa época.

Agora vem aqui: 35 milhões de cópias. Você acha o quê? Que esses fãs todos morreram de 1997 para cá? Não. Essas pessoas estão por aí, tentando não alanismorissettear demais a vida. Disfarçando com um sorrisinho amarelo todo o sentimento de  "You Oughta Know" quando tomam um pé na bunda e fingem civilidade.

Uma dica importante para todo mundo que tem encosto de Alanis Morissette é que até a própria Alanis Morissette deixou a revolta de lado, passou por uma fase budista fazendo videoclipe pelada e agora anda cuidando de projetos pessoais, dos dois filhos e de questões mais objetivas, tipo processar o empresário que passou a perna nela enquanto ela se dedicava a combater as injustiças das relações em letras raivosas. Algumas pessoas tem uma vida interior muito intensa (ou energia mental, chame como quiser) e nem todo mundo quer, pode, deve ou merece lidar com isso.

Alanis nunca vai deixar de ser um exemplo, convenhamos. E a gente também sempre pode seguir o exemplo da Alanis mais experiente, que provavelmente já decidiu discutir relação só com quem tá nessas de discutir relação.

Gosto de imaginar a Alanis hoje em dia olhando no espelho e dizendo "não sou obrigada a educar ninguém não, vai cagar". Daí ela pega uma lixa de unha e pensa "aham, parece que o jogo virou, não é mesmo?" ou, na língua dela, Isn't it ironic, don't you think?

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.