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Eleições: olhando de fora, o Brasil só tem um problema

Luiza Sahd

10/08/2018 04h00

O país é grande, parece que tem lugar para todos – mas não é bem assim (Foto: iStock)

Quem gosta de ouvir falar bem do Brasil é brasileiro. Europeu gosta mesmo é de escutar que temos lindas paisagens e um país todo mal ajambrado. Que o deles, sim, funciona. Que estou vivendo melhor aqui (o que não é verdade, a não ser por um detalhe).

Residente da Espanha há três anos e meio, ganhei o presente inestimável que é um idioma, além da perspectiva de uma sociedade que "funciona", mesmo que ninguém esteja plenamente satisfeito. Fora isso, não há um dia em que não sinta a frustração de não poder transplantar certas dinâmicas daqui e voltar para casa. A principal delas é a não-violência: um cidadão europeu é bem menos violentado do que a maioria das pessoas do mundo.

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Algo me diz que isso tem mais a ver com a sociedade minimamente igualitária que eles conseguiram montar do que com qualquer inclinação genética ou divina ao sucesso. Aqui, o rapaz que mora na calçada do meu prédio passa por consultas com o mesmo médico que eu. Ninguém joga água nele, ninguém chama a polícia quando ele fica doidão, gritando e quebrando garrafas por consumir sei-lá-o-que às quatro da madrugada. Há dois anos, trabalho em uma sacada com vistas para ele (e ele para mim) — mas nunca o vi sendo tratado como uma barata. Ele é o que é: uma pessoa. Todo o resto deve ser horrível, mas a vizinhança entende que este homem ainda é uma pessoa.

Se fosse possível isolar os prós e contras de morar fora com o mesmo peso e medida, o Brasil ganharia em tudo: clima, recursos naturais, paisagens, comida, música, humor, criatividade… bota aí o que você quiser. O Brasil não tem nenhum problema a não ser a desigualdade, muito mais acentuada do que gostamos de admitir — e raiz de tudo o que a gente acha que vai conseguir resolver nas urnas. Ninguém vai promover a paz entre o povo que não tem água encanada em casa e o que tem barco em Angra dos Reis. Não existe nada mais cafona do que o rico brasileiro: ele acha que está curtindo a vida, mas não pode dar uma volta em paz no seu conversível sem ser perturbado ou ameaçado por gente que não pode pagar nem a manutenção dos próprios dentes.

Por mais bem-intencionado que seja o seu voto nas próximas eleições — e a menos que pinte a chapa Jesus Cristo com vice Espírito-Santo — continuaremos esperando soluções de fora para um problema que governo nenhum vai resolver: o estilo de vida que almejamos. Ao invés de apostar no que temos de bom no país (quase tudo!) e abrir mão de luxos inspirados no hemisfério norte, a gente fica aí, querendo ser Estados Unidos, Europa, Tigre Asiático. Não vai acontecer. Mas a Elis Regina explica isso muito melhor do que eu, usando menos de quatro minutos do nosso precioso tempo:

Enquanto o brasileiro não assumir a própria identidade — também na esfera pública, mas principalmente nas nossas escolhas diárias —  vamos continuar exportando o nosso melhor… e consumindo bugigangas que países mais prósperos despejam pro nosso lado (incluindo os agrotóxicos que eles mesmos não engolem).

Se me perguntarem por que isso acontece, respondo bem baixinho que nunca foi diferente, desde 1500. Mas falo bem baixinho mesmo, que é pra não apanhar. Quem sabe se a gente tentasse algo diferente, teria um resultado diferente. Quem sabe?

Vivo fora há tempo demais para mentir que a Europa é confortável ou digna de inveja. O que eles têm a mais, ainda não aprendemos a copiar: o europeu diferencia suas pessoas de baratas. As pessoas de fora, eventualmente, eles preferem que morram no mar. Ou seja: não é bom. É só um pouco menos vexaminoso.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.