Luiza Sahd

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Viva a grosseria europeia

Luiza Sahd

19/07/2017 09h28

Quando vim morar em Madrid, uma penca de pessoas perguntou como eu estava lidando com a tal da “grosseria dos espanhóis”. Até hoje, não sei responder a essa pergunta porque concluo que jamais conheci um espanhol grosso. Vamos ver se me explico.

O primeiro choque cultural do tipo que rolou comigo (e talvez explique a mítica grosseria europeia) aconteceu no dia em que conheci uma moça alemã. Saímos com uma amiga em comum e, de todos os assuntos suscitados na mesa do bar, a minha opinião e a dela sempre divergiam, configurando um torturante Fla-Flu com quatro horas de duração — sem brigas, mas repleto de sorrisos amarelos e “podemos concordar em discordar”.

O destino é um sacana e a garota morava pertinho da minha casa. Nosso único elo, a amiga em comum, seguiu um rumo e, nós, sem ideia de que mais poderíamos conversar, entramos juntas no metrô. Os silêncios constrangedores foram rompidos por um cara que começou a fazer show de mágica no vagão. “Ah, odeio esses artistas de metrô. Às vezes a gente está cansado ou quer ler e eles fazem muito tumulto”, disse a alemã.

Aqui em anexo, segue minha opinião sobre quem “odeia artistas de metrô”.

Minutos antes, ainda no bar, ela havia comentado que mudou de bairro recentemente e se sentia muito sozinha. Já na saída do metrô, ao me despedir, fiz a latina-simpática-vamo-marcar-sim e mandei um “olha, você está só no bairro, né? Anota aí meu telefone e, se precisar de qualquer coisa, nos falamos!”

A resposta dela foi “não precisa não, obrigada”. Me deu dois beijos, virou as costas e se mandou me deixando com cara de idiota e celular na mão.

Na minha terra, isso chama grosseria. Na dela, sinceridade.

Pouco a pouco e ao longo de dois anos, fui exposta a uma série de sinceridades a que não estava acostumada aqui: gente falando que a comida não estava boa, amiga dizendo que não ia me ver porque simplesmente não estava a fim — e não porque tinha que acordar cedo no dia seguinte —, algum bêbado na rua me dizendo que não ia me ceder um cigarro porque não queria (sem o clássico “putz, é o último!”) e por aí vai.

Do mesmo jeito que me apeguei aos churros quase salgados, sem doce de leite e sem canela, me apeguei a essa suposta grosseria, que batizei carinhosamente de “assertividade”.

Se não quero bater papo com o colega de trabalho durante meu intervalo de almoço aqui, digo “desculpa, não quero conversar agora. Falamos depois?” e falamos depois mesmo, sem ressentimentos. Se alguém pede um favorzão que vai me atrapalhar em algum sentido, é “sinto muito, não posso te ajudar”. Assim, sem maiores detalhes, e segue o baile. Fazem o mesmo comigo, o tempo todo… e eu adoro.

Se isso é vocação inata para a grosseria ou apenas um misto de praticidade e honestidade, vai de cada um. Mas que delícia é não perder tempo fazendo voz infantil para explicar o óbvio a adultos. Que gostoso evitar dramas desnecessários ou discussões que não levam a parte alguma!

Como é bom virar para o motorista que encostou em cima da ciclofaixa e falar apenas “o senhor está em um lugar errado, me deixa passar?” e ele não fazer menção de brigar, só um joinha com a mão enquanto manobra. Ou ver garçom dando esculacho em comensal que fez pedido errado sem ter que escutar o gerente dizendo que o cliente tem sempre a razão.

Aparentemente, de modo geral, na metodologia de grosseria europeia, quem tem razão é quem tem razão mesmo. Sempre? Claro que não. A vocação humana é errar. Mas se essa minha paixão pela sinceridade europeia não passar de complexo de vira-lata, eu abano o rabinho e ainda dou a patinha feliz da vida por ser uma vira-lata assertiva.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista, escritora e especialista em mídias digitais. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante e Playboy, falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo.O que realmente importa: já entrevistou Inri Cristo, já flertou com Bruno de Luca usando um abadá e, sob influência de Shakira, vive na Espanha há dois anos rebolando para viver da sua arte.

Sobre o blog

Um espaço seguro para a troca de experiências tão reais quanto bastidor de selfie ou conversa de comadres lavando a calçada da vila. Aqui, a dor da gente sai no jornal sim.

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