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"Novo normal" em Madrid: quando a quarentena acabar, seremos mais felizes?

Luiza Sahd

20/05/2020 04h00

O meme da estampa de pano de prato deprê foi tão disseminado que acabou virando uma profecia.

Enquanto o Brasil entra na fase mais severa de contágio da Covid-19 — ocupando um triste terceiro lugar no ranking de piores cenários da pandemia pelo mundo –, a Espanha está voltando a respirar, real e simbolicamente.

De mil óbitos por dia, os espanhóis passaram a contabilizar 80. Essa ainda não é uma situação confortável ou segura (tanto que o estado de alarme foi prorrogado nas capitais mais populosas do país para evitar novos picos de contaminação), mas é, sem dúvida, uma prova de que as medidas restritivas de circulação de pessoas funcionaram — o país teve um dos lockdowns mais duros e extensos do continente europeu.

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Como prêmio pela cooperação dos cidadãos que ficaram em quarentena por dois meses — inclusive porque a não-cooperação era punida com multas caríssimas — os espanhóis ganharam, neste mês, o direito a sair de casa para praticar esportes duas vezes ao dia: entre as 6h00 e as 10h00 e também das 20h às 23h00. O plano incial era que o povo saísse do confinamento com cuidado e parcimônia; a realidade foi ligeiramente diferente.

 

O cenário em Madrid

Cheguei em Madrid no dia 5 de maio e pude ver o contraste entre os horários de pouca ou nenhuma circulação de pessoas nas ruas e o horário de prática esportiva. Se, por um lado, é de cortar o coração ver desertos os pontos turísticos outrora intrasitáveis como o Palácio Real, a Puerta del Sol ou a Plaza Mayor — onde normalmente os madrilenhos se acotovelam por espaço aos domingos –, por outro, achei tocante a emoção com que as pessoas saíam no horário de passeio: muito mais sorridentes (sorrindo com os olhos, por trás de máscaras) e expansivos do que eram antes da pandemia.

 

A Puerta del Sol com menos de quinhentas pessoas passeando casualmente parece fruto de uma alucinação minha

A excitação dos locais com a possibilidade de ocupar ruas e praças, além da comoção popular no horário de aplausos para os profissionais de saúde me contagiou — com todo o respeito nesse trocadilho. Qualquer pessoa que já tenha visto um animal enjaulado ser libertado sabe mais ou menos o que esse povo estava sentindo quando começou a circular por aí. Mas, passadas algumas semanas de euforia, os madrilenhos começaram a fazer o que todos os humanos têm vocação de fazer, naturalmente: sonhar.

As mediações do Palácio Real sem uma rodinha de turistas a qualquer hora do dia ou da noite: inacreditável

Sonhar com a reabertura dos bares, mesmo que tenham a ocupação limitada; sonhar com viagens no verão que se aproxima, com paquera e azaração, com a reabertura dos locais onde faziam atividades coletivas, com consumismo e aglomeração de modo geral. Não é preciso dizer que muitos destes sonhos serão frustrados a menos que a ciência nos salve com uma cura milagrosa para mais esse problema criado por nós mesmos.

A duração curta da euforia popular na Espanha com a desescalada do confinamento me fez lembrar que não éramos lá muito felizes antes de tudo isso acontecer. Ontem, em mais uma das mil e uma noites insones da quarentena, fui dar uma volta pela internet e saí impactada por este tuíte:

 

Além de constatar que já estávamos vivendo errado antes — com profundo descaso em relação a problemas sociais urgentes e dando pouco ou nenhum valor para alegrias simples como poder ir ao supermercado sem pegar um vírus mortal no ar  –, suspeito que a nossa tendência será continuar imaginando passados ou futuros idealizados, apesar de todas as oportunidades de duro aprendizado que a vivência da pandemia oferece.

A quem acha que vai sair dessa mais feliz por ter aprendido a valorizar a liberdade ou o abraço de alguém que a gente ama, dou meu testemunho: é extraordinário testemunhar como esquecemos rápido dos privilégios que temos. Há uma semana, eu me sentia esperançosa por ver gente feliz em Madrid. Hoje, já me peguei pensando em todas as possíveis rotas de fuga para uma das Ilhas Baleares, aqui do lado, porque fazia muito calor.

Se foi o sistema capitalista, o individualismo generalizado, a falta de consciência ambiental ou tudo isso junto que nos fez chegar até esse grau de insatisfação crônica, isso importa menos do que a urgência de um despertar coletivo para as responsabilidades e felicidades possíveis aqui e agora.

Quando me peguei devaneando com o cheiro do mar de Mallorca, abri bem os olhos e fiz força para voltar a sentir prazer simplesmente por estar fora de casa, vendo gente desconhecida passar por mim. Esse exercício de mindfulness capenga será, provavelmente, o que vai nos salvar das nossas próprias expectativas (e de futuros ainda mais sombrios caso não façamos mudanças bruscas no nosso estilo de vida).

Esse mesmíssimo exercício de mindfulness capenga também deverá ser meu alimento, dia e noite, quando eu voltar para um Brasil que está no auge da pandemia e do negacionismo, como quem viaja para o passado depois de fazer uma visitinha breve a um futuro que, olha, nem é tão promissor assim. Mas é alguma coisa. Todo presente é alguma coisa que não estamos sabendo enxergar direito.

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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