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Em novo livro, Elena Ferrante explora ira, autoestima e competição feminina

Luiza Sahd

21/01/2020 04h33

A mulher explode para dentro, o homem explode para fora e Elena Ferrante pode provar. (Ilustração: Reprodução/ hanaratih)

No último mês de novembro, a mais querida e popular das escritoras contemporâneas lançou seu novo romance. Cinco anos após o sucesso da Tetralogia Napolitana — que vendeu mais de 12 milhões de exemplares em todo o mundo e deu origem à série A Amiga Genial, da HBO — Elena Ferrante voltou à ativa em grande estilo (e continua afiada na sutil arte de desgraçar as nossas ideias).

Em "A vida mentirosa dos adultos", que chegará às livrarias brasileiras em 2020 pela editora Intrínseca, Ferrante conta a história de Giovanna, uma adolescente criada em um bairro de classe média de Nápoles (Itália), entre os seus 12 e 16 anos de idade. Em algum sentido, o livro traz mais dos mesmos dilemas que comoveram os leitores da Tetralogia Napolitana: sentimentos incômodos sobre as relações familiares, sobre feminilidade, descoberta da sexualidade e conflito de classes.

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Quando digo "mais do mesmo", também estou pensando "graças a Deus!". O que Ferrante tem de tão especial é justamente o talento para sobrepor dez dilemas diferentes em uma cena qualquer de seus livros, sem precisar destrinchar ou mastigar cada um deles para quem está lendo. Assim como acontece com a gente na vida real, quando vivemos uma situação de conflito com muitos fatores delicados e emaranhados, o leitor de Ferrante que lute para digerir o tanto de emoções humanas que a escritora transmite em diálogos secos e cortantes.

A ira feminina

Tenho para mim que, além de ser fruto de uma cultura diferente (já que é italiana) e de uma geração diferente (já que é maior de 60 anos), Ferrante deve ser uma mulher elegantíssima que jamais faz um barraco. Assim como Lenu, protagonista da Tetralogia Napolitana, ou Olga, protagonista de "Dias de abandono", a protagonista de "A vida mentirosa dos adultos" teria tudo para explodir em fúria em diversos momentos do livro mas não o faz. Ela acaba sempre implodindo antes de explodir com quem mereceria.

Lendo Ferrante, me pergunto quantas gerações de mulheres contiveram seus gritos e sofreram abusos psicológicos de diversos níveis mantendo um semblante de resignação. A maioria delas sempre optou pelo silêncio de quem sabe que teria ainda mais a perder caso abrisse a boca para reclamar do que já não ia bem.

Nos dias de hoje, a contenção da ira feminina é mais sutil, mas ainda é atravessada por muitos fatores como religião, classe social e idade. Por motivos diversos, nem toda mulher da nossa geração tem o privilégio de rodar a baiana quando necessário, mas toda mulher sabe como é fácil ganhar fama de louca caso pareça enfurecida demais com algum abuso. Os homens enfurecidos agem com mais naturalidade, muitas vezes gritando e algumas vezes partindo para a agressão física. A isso se dá o nome de testosterona.

Mais importante do que mostrar como a ira é um sentimento reprimido por mulheres do mundo inteiro, o novo romance de Ferrante mostra que a ira feminina sempre existiu e sempre foi imensa, mesmo quando as mulheres não podiam expressá-la para não colocar o próprio prestígio social em risco. Isso, por si só, já é um grito importante para todas nós. Se você é uma mulher furiosa, sempre é tempo de reconhecer suas fúrias. Com sorte, sempre será tempo de sinalizar que elas existem.

Autoestima e competição feminina

Os sentimentos perturbadores que homens e mulheres atravessam na adolescência enquanto constroem uma autoimagem também são explorados no novo romance de Ferrante. Assim como Lenu — a protagonista CDF da Tetralogia — Giovanna se sente feia em comparação às amigas. O que ela faz com isso é tentar ser a menina mais inteligente e atenciosa da turma. Sem entrar em spoilers (até porque nem precisa), é evidente que esse tipo de comportamento gera sofrimentos diversos em quem sempre está tentando agradar aos outros. Com Giovanna, não é diferente.

Outro elemento que bagunça as relações das adolescentes e até das adultas que protagonizam o livro é a competição feminina. Ela se manifesta tantas vezes e de formas tão variadas que é impossível não se identificar com algumas delas. A solução de Ferrante para esses conflitos mostra, também, o lado mais bonito da competição entre mulheres: na maioria dos casos, a cumplicidade entre as personagens supera qualquer mal-estar que o desejo pelo mesmo homem poderia provocar. Não porque as personagens são sublimes, mas porque os homens por quem elas brigariam realmente provam a cada gesto que a treta não valeria a pena.

Fora da ficção é comum acontecer o mesmo. Por muito que mulheres entrem em competição por atenção ou afeto masculino, geralmente elas atravessam um caminho mais ou menos tortuoso para descobrir que não vale muito a pena competir por alguém que não vai mesmo tratar a gente como gostaríamos de ser tratadas.

As personagens masculinas do novo romance também não são caricaturizadas como vilões: a história fala de homens comuns fazendo escolhas típicas de homens comuns. Qualquer personagem do livro poderia ser seu pai, seu filho, seu marido ou seu irmão. Particularmente, enquadrei mais de uma dezena de conhecidos em personagens de "A vida mentirosa dos adultos". Ali, nenhum homem é herói e nenhuma mulher é santa.

Para a surpresa de zero pessoas, a escritora napolitana que não curte mostrar o rosto conseguiu usar um livro potente para colocar espelhos imensos em nossas caras. Mal posso esperar para sofrer demais, outra vez, lendo a próxima obra de Elena Ferrante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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