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No Brasil seria ‘mimimi’? Licença menstrual é realidade em diversos países

Luiza Sahd

17/04/2019 04h00

(Foto: iStock)

O que você sentiria se a sua empresa oferecesse, todo mês, um dia de licença para as pessoas com menstruação dolorosa? A resposta pode dizer muito sobre a nossa parca educação sexual.

Em muitos países, a licença menstrual já é uma realidade: o Japão conta com políticas deste tipo desde 1947; a Coréia do Sul passou a conceder licenças menstruais em 2001. Em Taiwan e na Indonésia a licença também é praticada, enquanto a Zâmbia se tornou o primeiro país do continente africano a incluir o benefício na lei, em 2015. A Itália bateu na trave: tentou ser a primeira nação ocidental a introduzir o benefício para suas trabalhadoras no último ano, mas a medida não foi aprovada.

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A discussão em torno da licença menstrual permanece acesa em todos os países em que foi concedida.

Na última semana, a agência de marketing digital egípcia Shark and Shrimp anunciou a inclusão do benefício e o assunto voltou a mexer com os ânimos de muita gente, sobretudo de homens que encaram a licença como um tipo de discriminação reversa — talvez ignorando que há homens que menstruam e contam com o direito ao descanso mensal, talvez ignorando que o incômodo pode ser realmente incapacitante para muita gente, mas certamente sendo ignorantes como um todo. 

Chega a ser quase engraçado imaginar que rapazes que não menstruam possam achar injusta a privação deles de descanso mensal para lidar com as cólicas e o sangramento intenso, mas é assim que funciona. 

Existem diversas condições crônicas que podem causar menstruações incapacitantes — e elas quase nunca são facilmente tratáveis. Sofro de endometriose desde a adolescência e já não sei enumerar quantas vezes mandei mal no trabalho por estar sentindo dores lancinantes e continuar trabalhando para não parecer uma frouxa.

Já cheguei em um pronto-socorro vomitada de dor e sem sensibilidade nas pernas, já desmaiei de dor, choro muito todos os meses. Mas talvez isso ainda possa parecer um desvio de caráter se eu for dispensada para sofrer em casa ou num hospital, sei lá. Mesmo que eu quisesse muito usar uma licença menstrual para fazer farra, meu corpo me impediria. É meio duro não odiá-lo por isso, mas estamos sempre em negociação.

Para citar só a endometriose no Brasil, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas são portadoras da doença. Pesquisas apontam que uma em cada dez mulheres ao redor do globo sofrem da patologia. Levando-se em conta outros fatores que podem ocasionar menstruações horripilantes, isso significa que muita gente anda trabalhando mal (e com um sorriso amarelo no rosto) quando deveria, na verdade, estar de repouso com uma bolsa de água quente no abdômen.  

Outro dia, conversando com uma amiga a respeito das licenças menstruais, ouvi o que mais temia sobre o assunto: "Luiza, as mulheres já têm problemas demais para conseguir bons empregos e salários justos porque sempre podem engravidar — e nem todo recrutador é simpático a essa possibilidade. Imagina se a gente tivesse licença menstrual? Quem contrataria?".

Infelizmente, ela está coberta de razão. Em um mundo onde todas as pessoas são geradas por mulheres — mas muitas evitam contratá-las porque isso pode não ser tão lucrativo — a opinião da amiga a respeito da licença menstrual faz todo sentido. O que não faz sentido é a gente continuar fingindo que a questão não existe. Como todas as questões não discutidas, ela continua existindo.

Assim como há mulheres que sequer têm ciclos ou que não sofrem de dores menstruais, há aquelas que realmente padecem durante uns dias, mas que ficam mais produtivas do que um batalhão na semana subsequente, graças ao pico de estrógeno no corpo.

Quer as pessoas lidem bem com isso, quer não, parte considerável da população mundial é composta por seres essencialmente cíclicos — e essas pessoas podem aproveitar a oscilação hormonal a favor de si e do trabalho, como expliquei nesse texto sobre as mulheres aprenderem a menstruar.  

Para isso funcionar, é preciso de ética de todos os envolvidos ou não engrena de verdade. Não pode haver mentiras da parte de quem menstrua e não pode haver ignorância da parte de quem não passa por isso.

Ainda que seja uma reivindicação aparentemente inútil no momento que atravessamos, a licença menstrual é uma reivindicação absolutamente justa. Fora isso, em alguns momentos da história, discussões utópicas precisaram vir à tona antes que pudéssemos gozar de direitos básicos como os de trabalhar, votar, se divorciar, evitar mutilações corporais ou gestações arriscadas.

Ninguém que tenha bom senso e noção da realidade precisa discutir a licença menstrual como algo possível nesse momento. Mas ninguém que tenha bom senso e noção da realidade pode esquecer que essa questão existe e que ela é importante para, literalmente, meio mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.