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Como superar o medo de abrir a internet e só achar notícias trágicas?

Luiza Sahd

13/02/2019 14h27

Desligar a cabeça de más notícias é a saída mais fácil. Só não evita que aconteçam as próximas más notícias. (Colagem: frankmoth)

Lembra quando o pior trauma coletivo recente dos brasileiros era o vexame do 7×1 na Copa de 2014? Então. Saudades.

De janeiro para cá, ler os jornais sem desistir do dia — ou da vida — tem sido um desafio mesmo para o mais acostumado dos seres a receber notícias abruptas, como é o caso dos jornalistas. Se você é mais uma pessoa enfrentando certa fobia das notícias nas redes, saiba que também estamos assustados ao escrevê-las, mas não podemos fugir delas. Talvez você devesse tentar o mesmo, ainda que não dependa da leitura de jornais para trabalhar.

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É claro que deveria haver alguma lei (mesmo que fosse alguma lei misteriosa do universo) que nos protegesse de precisar encarar, na mesma semana, matérias sobre o acidente de Brumadinho ou o acidente do CT do Flamengo, sobre a operação militar no Fallet (Rio) ou sobre o táxi-aéreo irregular que caiu matando o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci. Isso é um breve resumo, mas a gente sabe que daria para citar mais exemplos — e que a coisa provavelmente não vai melhorar a curto prazo.

Por um lado, a sucessão de catástrofes vem gerando um imenso desejo coletivo por um pouco de alienação das notícias. Por outro, estamos vivendo em uma era que nos obriga, com a velocidade e o alcance das informações, a finalmente encarar o Brasil de perto, com todas as belezas e aberrações que isso inclui.

As más notícias de ultimamente são bem diferentes entre si, mas têm em comum a raiz dos acontecimentos na ilegalidade. O brasileiro sempre foi, antes de tudo, um forte. Em segundo lugar, um permissivo com atitudes de corrupção.

Quantas das últimas tragédias teriam acontecido se não tratássemos a corrupção como algo que só acontece na empresa dos outros ou em Brasília? Quantas vezes você testemunhou alguma forma de corrupção e em quantas delas você cobrou ética? Os sujeitos que não denunciaram as irregularidades na operação da Vale ou nas instalações no Flamengo são monstros? Será que não são "só" coniventes brasileiros, como eu ou você em algumas ocasiões?

Não existe, infelizmente, um botão de pânico para acionar a consciência coletiva sobre a importância da ética em cada escolha que fazemos (como falar ou calar sobre corrupções cotidianas). Talvez seja esse o papel mais importante das notícias ruins que recebemos sem parar: induzir à reflexão óbvia de que vamos continuar convivendo com elas enquanto não aprendermos a conviver com a ética — e com a forma como a vida é mais lenta e trabalhosa sempre que não é possível dar nenhum "jeitinho".

É obvio, mas talvez a gente ainda precise engolir muita notícia trágica com farofa até assumir um comprometimento com as atitudes chatas e necessárias para evitá-las.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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