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Luiza Sahd

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A pressa transformou nossas vidas em uma propaganda tosca dos anos 1990

Luiza Sahd

2028-11-20T18:04:00

28/11/2018 04h00

Se você não riu, se angustiou ou fez tudo isso junto com os infomerciais clássicos dos anos 1990, não sei onde estava, mas certamente era um lugar melhor do que o que vivemos. Caso precise de um refresco de memória, os infomerciais eram aquelas propagandas que explicavam o funcionamento de produtos que poderiam ser supérfluos caso as pessoas não quisessem fazer dezessete coisas ao mesmo tempo. Veja:

Quase 30 anos se passaram e a obsessão desse tipo de comercial foi superada no mundo da publicidade, mas as notícias não são tão boas para quem chegou a 2018: talvez a nossa vida esteja mais parecida com esses roteiros do que nunca.

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Percebi isso na última semana, quando me embonequei toda para sair e notei que não tinha tirado o lixo e nem levado a cachorra para passear. Resolutiva, fiz o que todo protagonista de anúncio da Teleshop faria: pendurei umas coisas no corpo (bolsa, cachecol), catei o lixo numa mão (estendendo bem o braço para não relar na meia-calça), a coleira da cachorra na outra e estava quase saindo quando notei que tinha um papelão para jogar fora também.

A criatividade é um traço forte do brasileiro porque a gente vem da experiência de privações diversas, tendo que improvisar sempre. Então, me perguntei: "que outra parte de meu corpo posso usar para resolver mais esse problema em menos de cinco minutos?" e meti o papelão embaixo do sovaco — já sentindo o roçar do saco de lixo na meia-calça — para finalmente descer os três lances de escada. Evidentemente, o papelão rolou, a cachorra escapou, essas coisas nunca acabam bem.

Bom, mas daí eu lembrei que tinha sextado, botei um sorriso no rosto e continuei descendo até o térreo, quando constatei que a cachorra tinha mijado no hall do prédio. Diziam os budas que "uma coisa de cada vez", então recolhi a cachorra e, quando estava prestes a alcançar meu primeiro objetivo (a lixeira), a cachorra fez cocô na calçada. O papelão caiu de novo. No que fui abaixar para recolher, meu cachecol caiu. No cocô.

Chorei de raiva. Não lembro direito como resolvi o resto, mas me senti burra por não ter feito duas ou três viagens — e pela relação doentia com a otimização de tempo. Não é que eu estivesse indo tirar meu pai da forca; estava indo para uma festa e, opa, quis ser multitarefas mesmo assim! Por que será que não pude fazer uma coisa de cada vez? Seria isso uma sequela pela exposição contínua às propagandas da Teleshop na infância? Difícil dizer. Mas tenho amigos na mesma situação.

Desde a primavera capitalista americana dos anos 1990, os produtos, serviços e relações mais desejados por todos nós são aqueles que otimizam nosso tempo. É o delivery, o Uber, aquele eletrônico com processador mais rápido, é a estatística assustadora que acaba te representando. As pessoas desistem do que estavam fazendo se um site leva mais de 10 segundos para carregar no navegador. Quem nunca sofreu algum acidente por caminhar e usar o celular ao mesmo tempo está de parabéns. Resumindo: viramos todos atores de propagandas toscas em potencial.

O fetiche por recursos que otimizam nosso tempo poderia até ser bom se aproveitássemos, sem culpa, a agenda livre que estes recursos prometem. Na expectativa, a gente medita, cozinha ou joga baralho na casa da avó. Na vida real, mesmo que nos dediquemos a essas atividades, nos sentimos mal depois de um ou dois dias sem fazer nada "produtivo".

Levando em conta que muita gente "produtiva" produz essa lambança toda que está aí, talvez seja o caso de dar um passo atrás e se perguntar sempre, quando surge a sensação de atraso, que tipo de coisa estamos produzindo. Em 98% dos casos, não é nada que vá mudar positivamente os rumos da humanidade, então talvez a gente possa se comportar mais como artesão do que como máquina.

Para entender melhor o quanto a velocidade influi maleficamente no funcionar do nosso corpo e das nossas relações nesta década, experimente fazer algum exercício bem tilelê — tipo atravessar 200 metros gastando 30 minutos para isso ou se servir bem lentamente na fila do restaurante por quilo para receber o carinho da população.

A gente só nota que vive no automático quando sai dele, com o perdão pelo trocadilho. Fazer alguma atividade de forma propositalmente lenta não vai resolver a sua vida. Pensar sobre quantas coisas "improdutivas" deixamos de fazer por achar que não temos tempo para elas, sim.

Antes de decidir o que é uma atividade produtiva ou improdutiva, a gente poderia se perguntar o que está produzindo e, principalmente, para quem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.