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Pode apostar: o trabalho é mais importante do que o amor

Luiza Sahd

24/05/2018 04h01

Imagem: iStock

Dizia eu, anteontem, que o afeto é um dos acertos de contas mais importantes que a nossa geração precisa fazer consigo mesma. Hoje, volto dizendo que o trabalho é mais importante do que o amor. Antes de enviar o pinel aqui pra casa, permita-me que me explique.

Quem disse isso aí nem fui eu. Fiquei sabendo por uma espécie de telefone-sem-fio filosófico: em uma palestra da escritora Vivian Gornick — de quem virei muito fã –, escutei essa afirmação. Até engasguei com a aguinha que bebia enquanto pensava "essa senhora, nova-iorquina e judia, foi corrompida pela força da grana que ergue e destrói coisas belas". Então, Vivian se defendeu dizendo que não foi ela que concluiu isso aí. Quem disse, originalmente, foi Freud, mas Vivian concorda.

Fiquei atentíssima para a explicação. De acordo com Freud, a busca pela felicidade está bastante atrelada a nosso trabalho e ao amor. Quando ele se refere a trabalho, isso aí não tem nada a ver com aquele emprego que odiamos, mas que, bom…  paga as contas.

Em psicologia, existe uma diferenciação importante entre trabalho e emprego. O primeiro é aquilo o que você faz com o seu tempo de vida: como gasta sua energia, as coisas que você cria e entrega ao mundo. Já o emprego, em psicologia, é aquilo o que paga nossas contas (e que tem grandes chances de ser um saco, mas também pode não ser, quando é semelhante ao trabalho que você gostaria de fazer caso pudesse decidir livremente).

Em seguida, Vivian falou um pouco de amor. Amor é algo bonito que podemos sentir na relação com o mundo exterior, mas, antes desse momento, existe toda uma vida anterior que quer sair de dentro da gente. O trabalho dá as pistas de como fazê-lo.

Ainda falando de escritores, Philip Roth, autor norte-americano falecido ontem, disse o seguinte sobre amor: "As pessoas acham que se apaixonar pode torná-las completas? A união platônica de almas? Não acho. Acho que você já é completo antes de amar. O amor te fratura. Você está inteiro e, de repente, o amor te faz uma rachadura".

O bom de citar personalidades consagradas é que não me comprometo tanto, mas, sinceramente, todas essas visões me comoveram, de modo que só fui capaz de ir fazendo que sim com a cabeça ao saber de cada uma. Na palestra de Gornick, ouvi um categórico "tomara que nenhum de vocês precise abdicar de trabalho ou amor nunca, mas, se for preciso escolher uma dessas coisas para abrir mão, desista primeiro do amor". Faz sentido se você pensar que trabalho é aquilo o que fazemos antes e depois do amor, seja ele de qualquer tipo.

Na busca pela completude, não sei como não suspeitei antes que ela começava em mim e que a expansão disso — o amor —  era o passo dois. Você não precisa amar o seu emprego, mas, se puder, descubra qual é o seu trabalho e agarre-se a ele. Talvez assim (e só assim) os afetos aconteçam com mais qualidade depois.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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