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Luiza Sahd

Como podemos pedir e fazer justiça por Marielle Franco?

Luiza Sahd

22/03/2018 04h00

A ilustração da artista Didi Cunha é a prova de que todo mundo pode fazer algo lindo por Marielle Franco

 

Desde a última quarta-feira (14), quando a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro — durante a ocupação militar que ela mesma estava incumbida de investigar como relatora — o Brasil não é o mesmo.

A primeira e mais importante mudança que Marielle promoveu foi chamar a atenção para os cadáveres em que estamos tropeçando há anos. Apáticos, seguimos desviando, mas eles continuam lá: dezenas de líderes políticos foram executados no Brasil recentemente por razões semelhantes.

Há tempos, me considero uma militante do pijama, mas a morte (sobretudo, a vida) da Marielle tirou meu sono e me arrancou do pijama. Desde então, tenho quebrado a cabeça pensando em formas de espalhar a voz dessa mulher, já que ela não sai da minha cabeça. O que podemos fazer, efetivamente, para que essa abominação política termine?

Antes de mais nada, concatenar fatos.

Sabemos que a munição usada para alvejar o carro da vereadora pertencia a um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília em 2006. Sabemos que o lote dessa munição foi o mesmo de parte das balas utilizadas na maior chacina do estado de São Paulo, em 2015. Sabemos que o discurso de Marielle era inconveniente para a polícia e o exército. A gente não sabe de tudo, mas o suficiente para cobrar o fim dos assassinatos institucionalizados. As respostas oficiais para as perguntas que ainda temos não devem vir de mão beijada, elas nunca vêm. Fora isso, quando vêm, raramente são confiáveis.

Inclusive, o momento é providencial para retomar as perguntas sobre o acidente aéreo que matou o ministro Teori Zavascki, que, olha só a coincidência, havia sido nomeado relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) na ocasião de sua morte. Essas vozes que gritam em nome de tanta gente não deveriam poder ser caladas com tamanha tranquilidade.

Se tanta gente bem-intencionada ainda quer o mesmo, é sinal de que podemos fazer: nas ruas e nas urnas. Podemos continuar perguntando incansavelmente, indefinidamente, bem alto, até provocar a exaustão completa de quem precisa responder, mas tenta silenciar as perguntas.

Estamos em maioria. Podemos nos revezar, podemos ir juntos que é mais seguro, podemos erguer os braços ou dar as mãos. A única coisa que a gente não pode é continuar entregando a apatia que instituições corruptas precisam receber para continuar pisando em tantas cabeças.

Ainda no conforto do pijama, convido todos os leitores a confirmar presença e compartilhar o evento da passeata de hoje em Madri, pela memória de Marielle e por tudo o que ainda queremos e precisamos. Não é pouca coisa, mas continuar cobrando é surpreendentemente mais fácil e proveitoso do que continuar aceitando a situação atual.

Pessoalmente, quero ter certeza de que a morte de Marielle não passa de um fenômeno simbólico para que ela viva mais e melhor dentro de nós. Ela está e sempre estará presente em mim daqui por diante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.