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Nem Bolsonaro gostaria de viver os “valores da família” como ele propõe

Luiza Sahd

18/09/2019 04h00

Emprestar dinheiro pro cunhado já é chato. Imagine pro motorista? Sempre dá problema (Reprodução/ Facebook)

Um dos muitos discursos falaciosos do governo atual toca no calcanhar de Aquiles de boa parte da nossa população: os tais "valores da família tradicional" que, segundo o presidente, fazem falta para que a gente volte a ter progresso como nação.

Como muitas das coisas que a gente tenta discutir sem gastar a paciência do interlocutor com textão, o papo da família sempre foi algo difícil de debater racionalmente sem partir para a ignorância. Quem achou as palavras certas não fui eu, mas Yuval Harari, um dos mais badalados autores de livros desta década, que tem uma lista de fãs nada modesta: alguns de seus leitores e amigos são Barack Obama, Bill Gates e Mark Zuckerberg. 

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Ouvindo o excelente audiolivro "Sapiens: Uma breve história da humanidade", fui tocada pela simplicidade com que o historiador explicou a ascensão e a queda da família nas sociedades humanas.

Harari explica que, antes da Revolução Industrial, a vida cotidiana da maioria dos humanos seguia seu curso no no interior de três estruturas antigas

– A familia nuclear

– A familia extendida

– A comunidade íntima (grupo de pessoas que se conhecem bem e dependem uma das outras para a sobrevivência)

Há duzentos anos, a família era um sistema de bem-estar social: supria as funções de fornecer a saúde, a educação, a indústria de construção, o sindicato, o fundo de pensão, a empresa de seguros, a mídia, o banco, e até mesmo a polícia que as pessoas necessitavam. Em um trecho especialmente marcante do livro, o autor explica melhor essa história.

"Quando alguém ficava doente a família cuidava dela. Quando envelhecia, a família sustentava e seus filhos eram seu fundo de pensão. Quando uma pessoa morria, a família cuidava dos órfãos. Se uma pessoa queria construir uma cabana, a família dava uma mão. Se uma pessoa queria abrir um negócio, a família levantava o dinheiro necessário. Se uma pessoa queria casar, a família escolhia — ou pelo menos analisava — o candidato a esposo. Se surgia um conflito com um vizinho, a família interferia. Mas se uma doença era grave demais para a família lidar ou o novo negócio demandava um investimento grande demais ou se a briga com o vizinho se agravava ao ponto da violência, a comunidade local vinha em seu socorro".

Naqueles tempos, se você matava alguém, o seu primo poderia ser morto como retaliação pelo seu gesto de violência. Pouco justo, pouco prático e com uma lógica bem nebulosa. Deus me livre de ser prima de um assassino naqueles tempos. Harari detalha melhor essa dinâmica:

"A vida no seio da família e da comunidade estava longe de ser ideal. Famílias e comunidades podiam oprimir os seus membros de maneira não menos brutal do que os Estados de hoje e sua dinâmica interna era muitas vezes repleta de tensão e violência, mas as pessoas tinham pouca escolha. Uma pessoa que perdesse a família e a comunidade por volta de 1750 estava morta: não tinha emprego, nem educação, nem apoio em época de doença ou sofrimento. Ninguém lhe emprestaria dinheiro ou a defenderia se ela se visse em maus lençóis. Não havia policiais, assistentes sociais nem educação compulsória. Para sobreviver, tal pessoa teria de encontrar rapidamente uma família ou comunidade alternativa. Meninos e meninas que fugiam de casa podiam, na melhor das hipóteses, se tornar servos em uma nova família. Em último caso, havia o exército ou o bordel. 

Tudo isso mudou radicalmente nos últimos dois séculos. A Revolução Industrial deu ao mercado novos poderes gigantescos, proveu o Estado de novos meios de comunicação e transporte e colocou a disposição do governo um exército de escriturários, professores, policiais e assistentes sociais".

Ou seja: trocamos a dependência da família pela dependência do Estado e do mercado. O que mudou foram as liberdades individuais; coisinhas que hoje parecem triviais, como o direito a viver nossas identidades sem sermos castigados por isso, a oportunidade de escolher com quem vamos (ou se não vamos) nos casar e até a opção de que nossos impasses com a comunidade sejam analisados por tribunais razoavelmente mais competentes, imparciais e preparados do que sei lá, o seu avô Eustáquio.

Em linhas gerais, a modernidade deixou para a família nuclear e extendida a responsabilidade afetiva pelos seus membros e deixou para o Estado e para o mercado a resolução de tretas mais chatas — de saúde, de segurança, de educação e de dinheiro. A gente sabe que isso não pode ser tão ruim assim quando lembra da piadinha clássica do cunhado que sempre pede dinheiro emprestado. Alguém que não se amarra na ideia de emprestar dinheiro pro cunhado ou na função de sustentar o tio idoso deveria pensar duas vezes antes de se queixar que "os valores da família se perderam". Os valores da família eram, basicamente, que um senhor mais velho mandasse em todo o resto do pessoal — e ai de quem discordasse. Competia a esse senhor inclusive matar ou vender filhos ingratos.

Já que o poder da família é, hoje em dia, representar uma rede de apoio — carinhosa, sempre que possível — para seus componentes, os "valores da família" a serem recuperados podem ser outros, diferentes dos levantados por governantes conservadores. A gente escuta que "os jovens já não respeitam os mais velhos", mas tudo indica que a evolução natural seria o estabelecimento de um respeito familiar mútuo. Os mais velhos também estão aptos a respeitar os mais jovens (as mulheres, os mais fracos, os membros da família que são diferentes do patriarca). O afeto é a única cola possível para as famílias no ano da graça de 2019.

Em tempos de turbulência tão intensa na política e nos costumes como os que vivemos agora, seria muito reconfortante mesmo que a família tivesse mais importância em nossas vidas: pena que as discussões apontam para trás, nostálgicas de costumes que já não funcionariam na realidade em que vivemos. O futuro da família é o fortalecimento de elos através do respeito e do carinho, da liberdade e da tolerância — como explica outro autor brilhante, Andrew Solomon, em seu best-seller "Longe da Árvore". A família que se fortalece através do afeto, essa sim é inabalável, como tudo o que o amor une, aliás. 

O problema das discussões que este governo propõe para a nossa sociedade é que elas não têm, nunca, uma base científica. A atitude científica permitiu aos homens a humildade de assumir que ainda não temos respostas definitivas para certos problemas — e que eles precisam continuar sendo investigados, que soluções precisam ser testadas, que nenhum de nós tem um milagre para tirar da manga. Enquanto isso, um chefe de Estado como o nosso apela para a sedução da preguiça e das soluções fáceis como a de "voltar aos velhos tempos". Todo mundo ama soluções fáceis porque elas não demandam esforços, mas a gente também já poderia ter se ligado que o mundo não anda para trás. 

A promessa de recuperar os valores tradicionais da família é uma das inúmeras posturas preguiçosas de Bolsonaro e de seus apoiadores. A preguiça, nesse caso, é como a procrastinação: enquanto a gente nega que precisa trabalhar para construir novas saídas em um mundo repleto de novidades, afundamos em velhos problemas e seguimos estancados.

"Seguimos", aliás, é um verbo muito otimista para o Brasil deste momento. Estacionamos com muita teimosia e não vamos a lugar algum enquanto não houver o desejo coletivo de fazer movimentos mais determinados e gentis no sentido do progresso. 

Não acredito que serei obrigada a terminar um texto com a frase "só o amor constrói", mas, no caso das famílias contemporâneas, é isso aí mesmo. Peço perdão pelo clichê.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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