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Democracia em Vertigem: por que voz de Petra Costa incomodou tanta gente?

Luiza Sahd

25/06/2019 04h00

Diego Bresani/Divulgação

A estreia de "Democracia em Vertigem", documentário de Petra Costa lançado pela Netflix para mais de 190 países fez muito barulho, como era de se esperar. O longa faz um apanhado sobre a história do impeachment de Dilma Rousseff e sua relação com a democracia restabelecida no Brasil em 1985, após o regime militar.

Na internet, alguns espectadores com convicções políticas à direita e à esquerda concordaram em reclamar do tom escolhido pela diretora para contar a história. O conteúdo exclusivo que o filme traz — como bastidores do dia do impeachment de Dilma e falas de Lula no dia de sua prisão — parecem ter surpreendido menos os pensadores de redes sociais do que a forma como Petra narra os fatos.

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Quem conhece outros trabalhos da diretora (como o premiado Elena, de 2012) já sabia o que esperar nesse sentido: Petra aposta na fórmula de dividir histórias íntimas para debater temas maiores, com implicações políticas e sociais. Com "Democracia em Vertigem", a diretora não fez diferente. Ela deixou bem claro que estava contando os fatos políticos desde sua perspectiva pessoal, sem arrogância e sem omitir dados biográficos relevantes — ela é filha de ex-militantes e neta de Gabriel Andrade, um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez.

Nos primeiros minutos do filme, confesso que também me senti aflita com o que estava vendo: "como assim a mulher fala abertamente sobre sua simpatia pelos governos do PT? Em um momento beligerante como nosso, o posicionamento de Petra Costa a respeito do partido que desperta mais paixões no Brasil só poderia servir, lamentavelmente, para acirrar a já exaustiva polaridade política que experimentamos desde junho de 2013", pensei. O melhor que fiz por mim foi segurar a ansiedade e assistir o relato até o fim.

É excepcional a honestidade de Petra ao montar uma linha do tempo comparando suas expectativas políticas pessoais com o que de fato aconteceu no cenário político dos últimos anos. Ela não tenta, em nenhum momento, meter uma aparência de neutralidade goela abaixo do espectador porque não precisa. A postura da diretora é como "olha, eu esperava isso, aconteceu aquilo, e os fatos documentados são estes". Ela se mostra triste com o desenrolar da história sim, mas qual brasileiro não está, à sua maneira?

O que deve causar muita estranheza para a audiência mais sagaz de "Democracia em Vertigem" é justamente a narrativa livre de sagacidade. No filme, a narradora se coloca como a brasileira que é: uma mulher privilegiada, mas tão perdida quanto qualquer um de nós nesse momento. Isso, por si, já foi uma escolha bem corajosa.

A voz de Petra Costa pode ser classificada como triste, apática, sentimentalista, vitimista ou umbiguista por quem quer que seja, mas pouca gente até aqui teve tanta bravura e competência quanto a diretora para tentar entender o quadro em que vivemos.

Apatia e tristeza são, aliás, sintomas clássicos no comportamento de quem fica vidrado na roleta de polêmicas da internet — sem trazer ao mundo nada tão poderoso como Democracia em Vertigem. Para bom entendedor, a voz mansa de Petra Costa é um gritão no pé da orelha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.