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Por que nossa autoestima anda tão baixa?

Luiza Sahd

06/07/2018 05h00

A resposta parece óbvia e é mesmo: só fazemos atividades que não gostamos ou em que não somos bons o suficiente. A pergunta real, que não coube no título, é "por que fazemos isso com nós mesmos?".

Assim, de cara, podemos culpar o mundo — até porque fazer isso relaxa pra caramba. Praticar o oposto (lembrar que também somos essa gente) é meio estressante. Então podemos começar, por exemplo, reclamando do sistema capitalista. Se pagar as faturas está em um nível de prioridade superior ao de cuidar da saúde mental, é natural que a galera não esteja raciocinando com muita clareza.

Sei disso não porque meu raciocínio seja excepcional, mas porque tive transtornos de pânico altamente incapacitantes entre 2007 e 2011 e fui literalmente forçada a investir dinheiro na minha saúde mental… Para continuar fazendo dinheiro. Aparentemente, foi para isso que nascemos em São Paulo, no fim das contas.

Há dez anos, a terapia e os remédios eram caríssimos (ao menos R$ 1500 fixos por mês) e tive uma sorte excepcional: encontrei profissionais generosos que fizeram descontos e parcelamentos para que eu seguisse me tratando. O que mudou em mim realmente não tem preço: percebi limites emocionais e passei a respeitá-los, mas também mexi na ordem de prioridade dos meus gastos.

Você sabia que menos da metade dos brasileiros têm um telefone celular? Até ontem, nem eu. Então vou assumir que, se você caiu aqui neste link, é porque tem o mínimo para viver: saneamento básico, um teto, alguma escolaridade e cinco minutinhos livres para pensar sobre autoestima. Se disse sim para tudo mas não tem encontrado tempo para fazer coisas de que realmente gosta, vou cravar sem medo que você está gastando tempo e dinheiro de forma errada, ainda que esses recursos sejam escassos.

Não nasci e nunca fiquei rica — sei nem como é a sensação — mas certamente tenho me sentido mais afortunada do que a própria Beyoncé desde que encontrei tempo para investir no que gosto ou enfiar o que gosto no que sou obrigada a fazer para me sustentar. Em linhas gerais, a ideia é colocar um pouco de coração no que se faz — mesmo que seja uma planilha chata.

"Meu trabalho é insuportável"
Aos 16 anos, trabalhei como recepcionista em um restaurante. Para os leigos, trata-se de servir mignon e comer salsicha. Bônus: um senhor que tinha problemas com álcool insistia em passar para bater um papo comigo todas as noites. Eu odiava, exceto pela parte de tomar bons sorvetes na hora do intervalo. Mas se pudesse mandar uma carta para mim mesma, diria o seguinte: "Luiza, você está fazendo isso muito bem. Em alguns anos, conversar com pessoas que não falam coisa com coisa vai fazer parte da sua profissão, então aprenda tudo o que puder na recepção e não ache que sua vida vai estacionar nisso eternamente". Depois do restaurante, ainda fui vendedora, garçonete, professora, atendente de SAC e gostaria de trabalhar ainda na área de espiã ou cabeleireira. Motivo: fazendo o que não gosta, a gente descobre o que gosta.

Foi no SAC que entendi como gosto de observar a forma como as pessoas lidam com frustrações; foi dando aula que notei que posso ser divertida falando em público mesmo que o assunto seja um porre; foi oferecendo roupas que eu não podia pagar pra gente que eu não suportava que aprendi o que é ser elegante de verdade. Dica: tem mais a ver com educação do que com classe social. Não perdi tempo. Ganhei tempo pra caramba em empregos supostamente medíocres.

Voltando à parte em que culpamos o mundo, nem amarrada e torturada eu concordaria com a frase "não pense em crise, trabalhe". Se pudesse refazer o slogan, diria "pense na crise sim e fuja dela". Nossa crise de autoestima deve ter mais a ver com o fato de que estamos todos sonhando com as mesmas coisas e, obviamente, não alcançando.

Poucas coisas da internet são mais nocivas nesse sentido do que os influencers de internet: a molecada perde um tempo danado assistindo ao triunfo de "gente linda" ao invés de olhar para dentro e procurar algo lindo em si próprio. Sempre existe e infalivelmente está debaixo de nossos narizes.

A sociedade pode valorizar certos atributos mais ou menos fixos, como ser bonito, jovem ou rico (de preferência todos, simultaneamente). Tenho um amigo que sonha em ser pipoqueiro mas não aposta nisso. Claro! Não existe influencer contando que podemos ser excelentes pipoqueiros. Fico triste porque sei que ele seria o melhor do planeta: é louco por pipoca, sabe bater um papo firmeza, curte fazer longas caminhadas e valoriza muito os eventos mundanos simples — tipo uma piada de tiozão ou uma conversa entreouvida na roleta do metrô.

Se a sua autoestima está baixa, procure coisas que passam pelo seu coração e vá pulverizando todas elas na rotina. De tanto praticar, pode ser que você vire mestre em fazer o que gosta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.