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O feminismo precisa pensar nos problemas dos homens?

Luiza Sahd

26/06/2018 04h00

Foto: Reprodução/ Instagram

Essa pergunta é, para mim, completamente retórica. Quanto mais descubro sobre o universo feminino, mais confusa me parece a resposta.

Nos últimos cinco anos, com o crescimento do debate público sobre direitos das mulheres, me dediquei a investigar o que poderia definir a feminilidade — largando o anticoncepcional após 13 anos de uso contínuo para sacar meus hormônios, desistindo das dietas insalubres que prometiam me tornar a pessoa "mignon" que nunca fui, experimentando terapias alternativas  ou simplesmente observando mulheres que me cercam. De uma forma ou de outra, cada nova descoberta chegava com alguma revolta em relação à autonomia que os homens recebiam desde pequenos e que não me chegou na mesma medida. Somos seres tão livres quanto eles em teoria, mas, na prática, é melhor não usufruir de certas liberdades.

Se alguma mulher duvidar disso, eu sugiro que comece a exercitar seu total livre-arbítrio ficando careca ou barriguda ou peluda. Se for tudo ao mesmo tempo e você for mais velha, melhor. Porque daí você fica mais parecida com boa parte dos homens que mandam no mundo atual e, bom, é partir pro abraço e chegar nos mesmos lugares que eles. Importante também é não reagir caso você sofra retaliações graças à sua aparência meio destoante à da Barbie: te dirão que você tem inveja dos homens e que, eventualmente, o que falta na sua vida é, ó! [gesto simulando um pênis bem grandão]. Mas, viu, não se iluda. Se você resolver exercer a liberdade de transar com geral, vai escutar poucas e boas também.

A ciência já provou por todos os meios possíveis que temos a mesma capacidade intelectual dos nossos pares. Se nada disso for argumento suficiente para que já tivéssemos a mesma representatividade, aceito explicações melhores do que "machismo" na caixa de comentários, aqui abaixo.

Por outro lado, ando cansada de odiar homens e andei consumindo aí uma droga chamada "estudos sobre masculinidade tóxica". Olhando bem, todo homem é ferido pelo machismo em alguma medida porque, apesar das liberdades todas, os caras não usufruem de uma das que mais aprecio na vida: sentir.

A um menino, não é muito permitido se emocionar. Ele pode sentir tudo o que estiver relacionado à testosterona (agressividade, tesão, vigor) e pouco mais. Desde pequeno, o homem tem que parecer, acima de tudo, inabalável. E não existe homem inabalável simplesmente porque não existe pessoa inabalável. Faça essa matemática direitinho e adivinhe com quem fica a missão inteira de ter sensibilidade nas relações? Com você, minha amiga dona de casa! Felicidades e meus parabéns.

Se alguém perguntar se sinto pena dos homens por isso, a resposta é um redondo "não". Já tive pena, levei pra casa e percebi que eles estão em posição mais confortável do que eu para lamber as próprias feridas, mas algo me diz que não vão fazê-lo porque o imaginário coletivo de masculinidade inclui a insensibilidade. Assim, o ciclo se fecha e, quando a gente se dá conta, tá reproduzindo o discurso do Jardim II de meninas versus meninos porque realmente não tem condições de aguentar o sujeito que se dirige a você como se tivesse comprado um direito vitalício de opinar sobre seu corpo via boleto bancário.

Muitas feministas que respeito têm afirmado que não podemos nos ater muito nas questões de masculinidade tóxica como se não tivéssemos mais o que fazer — ou como se não precisássemos correr atrás de séculos de atraso em direitos civis. É um ponto. Meu ponto, no momento é: até quando a gente vai só gritar e ser chamada de doida por estar gritando? A gente quer mesmo reproduzir o modelo masculino de poder agressivo?

Duvido um pouco que seja o melhor caminho. Olhar para as feridas que a masculinidade tem produzido e sinalizá-las tem me parecido uma alternativa sempre menos desgastante do que bater boca. Isso não faz parte de um cuidado com eles. Isso é, na verdade, um cuidado pessoal com a minha voz, que não pretendo gastar à toa, berrando para um abismo vazio cujo eco é "você está louca". Como em tudo na vida, o plano é jogar um tempero de afeto e ver se o gosto fica menos pior.

Suspeito que fique mais palatável para todos os envolvidos, ainda que não esteja escrito em lugar nenhum que as mudanças importantes do mundo possam ter algum gosto que não seja o amargo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Sobre o blog

Um lugar na internet para falar das coisas difíceis da vida -- política, afeto, gênero, sociedade e humor -- da maneira mais fácil possível. Acredita de verdade que se expressar de modo simples é muito sofisticado.

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